Itamar Montalvão: “Jornalistas sérios não brigam com a realidade”

Hoje, publicamos uma conversa do Estado da Arte — conduzida por nosso editor, Gilberto Morbach — com o jornalista Itamar Montalvão, editorialista do jornal O Estado de S. Paulo. Na pauta, o jornalismo no Brasil de Bolsonaro, os imperativos da profissão, o jornalismo cultural em nosso tempo, nosso presente e nosso futuro.

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Montalvão (Reprodução: Acervo do autor)

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No Brasil de Jair Bolsonaro, os ataques à imprensa são uma constante — a “mera retórica” do Presidente da República já se traduz materializada em episódios de agressões físicas de bolsonaristas a profissionais da imprensa. O jornalismo está acuado? Está tudo normal?

Normal, evidentemente, a situação do País não está. Não podemos considerar normal, na segunda década do século 21, a emersão de receios em relação à preservação da nossa democracia, receios estes que há muito deveriam ter sido superados. Não é normal que segmentos expressivos da sociedade tenham de despender tanta energia para simplesmente manter hígidas as conquistas democráticas que tanto nos custaram. Normal seria estarmos debruçados sobre projetos que nos conduzam a um futuro mais próspero, menos desigual e mais fraterno, não segurando a porta para impedir a entrada de fantasmas do passado.

Não vejo o jornalismo acuado. O jornalismo profissional não se vergou sob Floriano Peixoto. Não foi contido pelos desmandos de Getúlio Vargas. Não sucumbiu aos ferozes ataques da ditadura militar. Portanto, não será Jair Bolsonaro que fará a imprensa profissional deixar de prestar serviços relevantes à sociedade. Jornalismo exige coragem e espírito público, além de uma inabalável devoção à verdade factual. São atributos que incomodam os detentores de poder, sejam eles instituídos por lei, sejam criminosos.

Agora, não podemos perder de vista que líderes populistas como Jair Bolsonaro têm como traços distintivos o anti-intelectualismo, a desqualificação da ciência, da verdade factual, em suma, do conhecimento. O trabalho de jornalistas profissionais se insere neste contexto de depreciação dos fatos em prol das versões. Não surpreende, portanto, que Bolsonaro estimule em seus apoiadores essa aversão aos jornalistas. Os mais perturbados interpretam este comportamento pouco republicano do presidente como um sinal verde para ameaças e agressões. E isso preocupa muito, claro. É caso de polícia.

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Floriano Peixoto, no traço de Angelo Agostini

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Como editorialista de um jornal como o Estado, como encontrar o justo meio entre a crítica pela crítica, que se perde em pontos de exclamação e dedo em riste, e as platitudes que não dizem nada — isto é, como chamar as coisas pelos nomes que elas têm de forma desapaixonada, mas sem que o distanciamento signifique complacência?

Não há “crítica pela crítica” nos editoriais do Estado, e tampouco complacência. Há responsabilidade e fidelidade a uma história secular. O jornal tem opinião e esta opinião é dada sobre fatos ou ideias muito bem delineados. A reputação das “Notas & Informações” do Estado foi construída ao longo de 145 anos de inarredável compromisso com a defesa da liberdade e dos valores republicanos. Portanto, não há espaço para digressões ou aleivosias. Não é difícil achar o tom apropriado.

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Já há tempo — e, agora, parece-me que mais do que nunca — a imprensa como tal vem sendo deslegitimada aos olhos da opinião pública. Quais são os imperativos que você costuma ter em mente em seu trabalho editorial considerando esse momento, de deslegitimação daquela que é, por excelência, a instância de mediação da palavra?

O imperativo é um só: o compromisso com os fatos. Sempre. Jornalistas sérios não brigam com a realidade. De tempos em tempos, ascendem ao poder líderes que se incomodam um tanto mais com o trabalho da imprensa profissional. Isto é corriqueiro, nada com o que os jornalistas não estejam habituados. Sempre foi assim e nada indica que deixará de ser. E se o jornalismo aí está por tanto tempo é porque, no fundo, a esmagadora maioria dos cidadãos compreende o valor da profissão como uma das principais formas de mediação do debate público. Hoje, evidentemente, há múltiplas esferas públicas e outros tipos de mediação, mas o jornalismo segue mais relevante do que nunca. Não devemos subestimar a audiência, muita gente sabe quando está diante de um engodo. A eclosão da pandemia de covid-19 mostrou o quão fundamental é o jornalismo profissional.

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Crise democrática, institucional, econômica, sanitária. Em sua trajetória no jornalismo brasileiro, há algum paralelo possível, algum contexto comparável, ou estamos diante de algo sem precedentes?

Eu não creio que estejamos atravessando uma crise democrática, institucional. Os Poderes da República estão íntegros e, em que pesem as rusgas entre o presidente Bolsonaro e as cúpulas do Legislativo e do Judiciário, não me parece que o sistema de freios e contrapesos tenha deixado a desejar de modo a sugerir a submissão de um Poder a outro. Ao contrário. Todos os arroubos autoritários de Bolsonaro foram contidos até aqui pelo Congresso ou pela Corte Suprema. Ao mesmo tempo, estas instituições não faltaram ao presidente quando ele precisou adotar medidas de interesse nacional. Cito como exemplo recente desta cooperação institucional a aprovação do auxílio emergencial, do chamado “orçamento de guerra” e o afrouxamento, autorizado pelo STF, das normas da Lei de Responsabilidade Fiscal no curso do estado de calamidade pública.

Há, sim, a eclosão de uma gravíssima crise sanitária que aprofundou ainda mais uma crise econômica que já se mostrava bastante preocupante muito antes da confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil. Formou-se a tal tempestade perfeita. Neste sentido, não vejo paralelo em nossa história recente. Inaudita também haverá de ser a liderança de Bolsonaro e de quem lhe sobrevier em 2023 na condução do País no curso de uma duríssima reconstrução. A ver se o presidente dará conta deste enorme desafio e se a sociedade saberá identificar entre os prováveis candidatos à sua sucessão aqueles que sob o verniz do marketing eleitoral não são mais do que vendedores de falsas promessas. Temos anos muito difíceis à frente. O que menos o País precisa é de um aventureiro.

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(Foto: André Dusek/Estadão)

Nesse sentido, considerando sua trajetória, é impossível não destacar seu trabalho na esfera do jornalismo cultural. Daí a pergunta na linha de nossa conversa: estas nossas circunstâncias tão particulares interferem também nessa área? Qual é o papel do jornalismo cultural neste nosso tempo?

Quero lembrar aqui de Antonio Candido e a função terapêutica da literatura. “Ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado”, escreveu um dos nossos maiores críticos literários. Se em tempos normais a cultura, e por extensão o jornalismo cultural, é imprescindível para o fortalecimento do espírito, muito mais relevante se torna em tempos críticos como o que vivemos agora. A cultura é o nosso olhar para o mundo, para a vida em toda a sua complexidade. Tem o poder de comunicar o que por outros meios nos pareceria incompreensível. O jornalismo cultural tem importância capital neste processo de formação que, ao fim e ao cabo, é um processo de autoconhecimento.

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Antonio Candido