Uma tarde com Ferreira Gullar

por Rafael Rocca

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Ferreira Gullar

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Era dia 3 de julho de 2012. Uma tarde tépida, mas não úmida, e um céu semiencoberto observava a vida cotidiana e insana da capital do estado de São Paulo. Recém-chegado ao curso de Letras, com o qual eu tanto sonhara, procurava me inteirar sobre o panorama literário brasileiro daqueles anos, tão produtivo quanto um tanto insípido em novidades. Havia visto uma chamada em alguma revista que fala em literatura (não lembro se a Cult ou o belo Jornal Rascunho) que Ferreira Gullar estaria presente em uma das filiais da Livraria da Vila, aquela, menos conhecida, que se situava na Dr. Mário Ferraz, no Itaim, para o lançamento de um CD de poemas chamado Poemas de Gullar por Gullar. Pensei ser peculiar escutar o autor lendo seus próprios poemas, com sua entonação particular e sua própria interpretação, e então me dirigi até lá, muito mais cedo do que o horário previsto para também passear pelas novidades e pelos lançamentos literários.

Como em todo lançamento, uma ocasião semiformal, retraio-me e observo de longe. Gosto de autógrafos e, sempre que posso, levo algum volume da autora ou do autor para que ela ou ele o rabisque. Penso que uma partezinha deles agora se encontra ali, naquele exemplar que estava antes anônimo em minha estante, e que me aproxima dos criadores dessas fugas belíssimas. Poucas vezes levo, no entanto, o livro (no caso, o CD) que está sendo lançado. Procuro uma obra mais antiga, ou uma edição mais antiga, da obra do autor para que ele ressignifique suas páginas de abertura. E foi assim que cheguei à livraria, por volta das 16 horas, para o lançamento que ocorreria às 19 horas, com o volume Toda poesia (1950/1980) (da edição do Círculo do Livro, com suas capas duras de qualidade, impresso em 1982, sem, portanto, conter a poesia completa de Gullar). Obviamente também adquiri, depois, o CD, já que a boa etiqueta o prescreve em tais ocasiões. Mas me interessava mais o livro.

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(Reprodução: Acervo do autor)

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O pensamento que me ocorreu na hora em que cheguei era de que, por ser um autor conhecido, de envergadura nacional e de tantas participações em diversos movimentos literários, a casa estaria repleta de admiradores e de leitores ávidos por roubar a Gullar alguns poucos segundos para pronunciar alguma frase banal, comum, esperada à ocasião. Estava enganado. Ainda que muito mais cedo do que o planejado, havia somente eu, duas outras pessoas e os funcionários da livraria, aparentemente incônscios do que se passaria dali a algumas horas, um evento importante para mim pessoalmente (quem não se lembra de ouvir poemas de Gullar na infância? No Castelo Rá-Tim-Bum ou outro programa na TV Cultura?). Fiquei surpreso com aquele suposto desinteresse (eu não esperava uma legião, claro, porém alguns mais ansiosos por ver e ouvir o poeta). Fiquei ainda mais surpreso: no centro do salão, a uma mesa redonda de vidro, sobre a qual havia amendoins verdes e vermelhos, alguns copos, alguns guardanapos e uma garrafa de champagne, Ferreira Gullar estava sentado com braços cruzados sobre a mesa, observando a paisagem passageira dos funcionários e o multicolorido estático dos livros nas estantes.

Um velhinho, óculos grandes, olhos claros já um pouco glaucos pela idade, de baixa estatura, observava o salão, comendo aqui e ali um amendoim e tomando um copo de água. Outras duas cadeiras estavam ali, vazias, porém não ousei me acercar delas ou da mesa para, invasivamente, me sentar junto ao poeta. Dessa maneira, com um fio gelado arrepiado perpassando o centro de meu peito, comecei a andar pela livraria fingindo distração; na mão direita, empunhava o volume branco de Gullar.

Fiquei perambulando por quase meia hora, tocando ou levantando aqui e ali um volume ou outro pelo qual não me interessava. Dei a volta pelo salão e voltei ao ponto inicial, próximo à entrada. Olhei novamente a mesa, Gullar olhou em minha direção e fez um aceno de cabeça. Acenei de volta, não sabendo exatamente se devia dizer alguma coisa ou cumprimentar o autor. Nada disse. A iniciativa partiu dele.

“Você veio para o lançamento?” Respondi que sim. “Esse livro aí na sua mão… quantos anos faz que não vejo essa edição! Nem sei se tenho mais. Posso vê-lo?” Aproximei-me e entreguei o livro a ele. Revirou duas vezes capa e fundo, observou o desenho impresso na frente. Abriu a primeira página e foi à folha de rosto. “Lembro desse desenho. Ilustrador bom” (a confiar nos créditos, Nathanael Longo de Oliveira, que assina a capa).

Demorou-se um pouco a observar o desenho. Virou-se para mim: “Olhe, estamos só nós aqui. Sente-se na cadeira, por favor. Vamos conversar”.

Imediatamente fui tomado por ansiedade. Sentar-me à mesa, com um poeta daquela envergadura… que outras surpresas a vida me traria? Devagar, para não derrubar nada, afastei a cadeira de metal com encosto, Gullar pousou o livro à mesa, sentei-me. Ofereceu-me champagne, dizendo: “Não bebo. Não me apetece. Prefiro a velha água”. Recusei a bebida, pois também não sou muito afeito ao álcool. Ainda que fosse me desinibir naquele momento, e talvez fosse até produtivo e proveitoso, preferi manter a sobriedade para aquela conversa.

“Faz tempo que você lê poesia?”

Respondi que sim, porém com intervalos. Por ter frequentado a faculdade no Largo São Francisco, entrei em contato com os poetas que passaram por lá, os ícones do nosso romantismo, e outros menos conhecidos (Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varella, Bernardo Guimarães, Juó Bananere). Ele olhou para mim um tanto mais longamente diante daquela resposta.

“Você é um prosador? Não tem problema. Tem horas que a poesia me é um saco. Mas não paro, nem posso”. A primeira confissão. Aquela conversa prometia.

Perguntei-lhe quais eram as perguntas que ele mais ouvia, pois eram precisamente as que eu queria evitar. Ele riu. Falou que geralmente são sobre os poemas mesmo, de onde ele tirou tal ideia (“quase nunca me lembro, invento algo na hora se não lembro”), como surgiu tal poema etc. Havia muitos outros aspectos em sua vida e sua obra. Queria falar deles. Chutei o primeiro tema, o que pareceu agradá-lo. Perguntei sobre sua relação com o cantor Raimundo Fagner.

“Fagner? Esse é doido”, disse, com um sorriso sincero de quem fala de um amigo muito querido. “Fagner… Fiz a letra de várias das músicas dele. O texto. Ele colocava a melodia. Ou surrupiava ambos”. “Surripiava?”. “Sim, e às vezes não me contava. Lembra aquela música do peixe? O Fagner chegou para mim com uma melodia e um texto em espanhol. Falou para mim: olhe, veja se traduz isso para mim, com aquele sotaque cearense melódico e inconfundível, assim como a voz. Traduzi a letra. Aparentemente fez bastante sucesso. Daí chega um dia e ele me liga nervoso falando que deu um problema com ela. Problema? Que problema em um poema cantado? Então, essa era uma música em espanhol, com direito autoral e tudo! Traduzi a letra, ele pôs a melodia da música original e eu nem tinha me tocado! O caso se resolveu rápido, e hoje acho engraçado”.

Essa é a famosíssima música Borbulhas de amor, cantada por Fagner ao final de seus concertos e conhecida praticamente pelo Brasil inteiro, um clássico ao lado de Deslizes, a belíssima Noturno, a mais que belíssima Retrovisor. A letra e a melodia originais (“Borbujas de amor”) são do cantor Juan Luiz Guerra (1957-), de Santo Domingo, República Dominicana, que goza de fama também no México. Gullar continuou:

“E não foi só essa nossa parceria. Ele musicou, e lembro que gostei muito, e ainda gosto, da música que ele chamou de Me leve”:

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Cantiga para não morrer

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Quando você for se embora,

moça branca como a neve,

me leve.

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Se acaso você não possa

me carregar pela mão,

menina branca de neve,

me leve no coração.

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Se no coração não possa

por acaso me levar,

moça de sonho e de neve,

me leve no seu lembrar.

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E se aí também não possa

por tanta coisa que leve

já viva em seu pensamento,

menina branca de neve,

me leve no esquecimento.

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Em Dentro da noite veloz (1975)

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“Essa história é pessoal. Quando eu estava na União Soviética, no exílio, namorava uma jornalista russa. Depois de um tempo, ela teve de ser transferida para outras regiões, bem longe, e eu não podia ir com ela. Quando foi o dia da separação, escrevi esse poema após dizer adeus a ela na estação de trem. Gostei do poema, entrou no meu livro. Ela era muito branca, quase se confundia com a neve. Por isso o ‘menina branca de neve’. Eventualmente ela me levou no esquecimento. Nunca mais a vi ou ouvi falar dela”.

E o assunto das mulheres da vida de Gullar continuou:

“Sabe aquele trecho do Poema sujo que eu menciono alguns nomes de mulheres?” Pausa:

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bela bela

mais que bela

mas como era o nome dela?

Não era Helena, nem Vera

nem Nara nem Gabriela

nem Tereza nem Maria

Seu nome seu nome era…

Perdeu-se na carne fria

perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia

perdeu-se na profusão das coisas acontecidas

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Em Poema sujo (1975)

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“Nem preciso te dizer que Helena era a moça do outro poema. Esse trecho é sobre outra mulher, que realmente não me lembro. Esses que coloquei aí foram os nomes de outras namoradas que tive durante a minha vida. Aquela era a única que não me lembrava, mas disso eu derivei o poema. Meio que não me importava mais não saber o nome; quis falar daqueles amores que os nomes somem”.

Nesse momento, já com alguma hora de conversa, interrompeu-nos um jovem, próximo aos vinte e cinco anos, e perguntou se podia se sentar à mesa. Com um aceno de cabeça, Gullar assentiu. Trazia nas mãos um maço de papéis. Cumprimentou Gullar, parabenizou por seu trabalho que tanto o inspirava, emendou um “inclusive” e entregou o maço nas mãos de Gullar. Este deu uma rápida olhadela no título e pousou os papeis sobre a mesa. O rapaz, cujo nome não me lembro, sentiu-se vivamente alegre e tascou uma pergunta sobre a participação de Gullar no concretismo, o movimento de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, entre outros, e, claro, de Gullar. A essa pergunta, a resposta foi rápida:

“Só existiu um único poema concreto e ele foi meu. Era uma planta-baixa de um poema. Consistia em um quadrado de concreto no chão com algumas palavras [não disse quais eram] e, em cima dele, uma enorme esfera lisa de concreto representando o mundo. Um amigo [não disse qual era] tinha uma casa com um quintal grande e topou construir o poema. E no mês seguinte o poema estava pronto, construído em concreto, como um poema concretista [ele ressaltou o trecho da palavra] deveria ser. O resto é bom, mas às vezes vira design gráfico”, disse, rindo, evidentemente uma piada interna entre os três autores concretistas amigos.

Nesse instante, o rapaz desculpou-se e necessitou ir ao banheiro. Gullar me disse: “Em todo lugar que vou recebo esses livros de poemas para ler e, sei lá, aprovar. Um jeito de levar meu nome junto. Geralmente são bem ruins, não sei este. Pelo título, não gostei”. Mais tarde, observei que havia um maço de papel no lixo do caixa da loja. Não sei se eram os poemas do rapaz, mas pareciam (o rapaz pode estar lendo isto agora: perdoe-me pela inconfidência e pelo talvez balde de água fria).

A conversa não se estendeu muito mais porque os funcionários da livraria o chamavam para os preparativos do evento, que iria começar em breve. Algumas pessoas apareceram, assim como alguns jornalistas com suas câmeras. Poucos. Isso também me surpreendeu: eu esperava mais gente. Mas… em um país que lê pouco (cerca de 0.8 livro por ano por habitante, ou pouco mais), era de se esperar. Passou da hora de valorizar nossos poetas.

Gullar autografou meu exemplar antigo, bem como o CD que eu evidentemente adquirira. Ofereci primeiro o livro. Colocou meu nome ali na dedicatória. O rapaz, que havia voltado de seus afazeres biológicos, notou a assinatura.

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(Reprodução: Acervo do autor)

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“Considere-se afortunado” — a palavra foi essa mesmo —, “ele não costuma escrever o nome da pessoa, somente se gostou dela”. Perguntei como o sabia. “Acompanho-o em vários lançamentos; já fui em vários”. Um roadie de poeta, portanto.

Gullar, que havia ido falar com o funcionário, voltou para se despedir.

“Meu amigo, acho que agora me chamam. Não sei se nos veremos novamente. Tire uma foto como recordação de hoje”. Tirei a foto em meu celular velho. “Bom, boa sorte em seu curso de Letras. Nossos poetas carecem também de estudos da velha academia. Boa noite”. Deu-me a mão e voltou-se para os funcionários, que o aguardavam.

Ele tinha razão: não voltei a vê-lo. Creio que também não se lembraria de mim, dada a quantidade imensa de pessoas que transitam por sua agitada vida de poeta e crítico. O quanto de verdade houve naquela conversa, jamais saberei.

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(Reprodução: Acervo do autor)

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Recebi a notícia de sua morte em 4 de dezembro de 2016 com pesar. Porém, aquela alegria íntima, aquela tepidez que lembrava aquela tarde, que revigora e cresce o coração, permaneceu, sobreposta ao passamento.

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Rafael Rocca

Rafael Rocca dos Santos é formado em Direito e Letras (alemão/português), ambos pela USP. É Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP/FFLCH-Bauhaus-Universität Weimar (Alemanha) com dissertação sobre a figura do duplo na literatura ocidental. Realiza um doutorado em Estudos Literários e Culturais na USP/FFLCH sobre literatura de testemunho do Holocausto. É tradutor do inglês, alemão, latim e espanhol, com traduções publicadas e no prelo. Edita a seção Transmargens da Revista Mallarmargens. É Vice-Diretor da Casa Brasileira Fernando Pessoa. e-mail: rocca.eda@gmail.com.