Tenet – O esgotamento do tempo

por Miguel Forlin

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Como outros filmes de Christopher Nolan, Tenet (Idem, 2020) introduz o seu universo cinematográfico apresentando o espectador a uma sequência sobre a qual ele nada sabe, sugerindo-lhe, assim, que, antes de compreender as causas e efeitos do que, nesse primeiro momento, está sendo visto e ouvido, ele se deixe levar sensorialmente pelas imagens e sons. Minutos depois, quando já sabemos mais a respeito daquele universo, essa intenção original, a primeira que deduzimos, é estranhamente reforçada por uma fala ― “Não tente entender, apenas sinta” ―, dita pela personagem (Clémence Poesy) cujo único propósito é informar, para nós e para o protagonista (John David Washington), os principais conceitos e paradoxos temporais que guiarão o filme ao longo de sua metragem.

Sabidamente, Nolan é um árduo defensor da experiência imersiva das salas de cinema, e é precisamente essa experiência imersiva que orienta a concepção e o desenvolvimento dos projetos que o interessam. Seus filmes são produções de alto orçamento, espetáculos sensoriais construídos especialmente para telas grandes e poderosos sistemas de som. Em contrapartida, essa imersão nunca ocorre de maneira fácil, uma vez que a predileção do cineasta por narrativas não lineares, repletas de intrincados conceitos de tempo, exige do público uma observação atenta a detalhes e aspectos do enredo. Essas duas características ― experiência imersiva e histórias labirínticas ― complementam-se no seu cinema. A primeira, para ter o efeito máximo, supõe a compreensão e absorção da segunda, e esta, com suas particularidades, é que possibilita a existência daquela.

Daí que a fala “Não tente entender, apenas sinta” cause uma certa estranheza. Em seus filmes de tramas mais complexas, como A Origem (Inception, 2010) e Interestelar (Interstellar, 2014), Nolan abusa de recursos cinematográficos e diálogos didáticos para explicar pormenorizadamente todas as propriedades dos conceitos científicos e temporais empregados. Em Tenet, dá-se a mesma coisa. A própria estrutura do filme se alterna em duas partes que se seguem e são repetidas ad nauseam, uma formada por sequências de ação e outra, por longas exposições verbais do que estamos vendo e do que veremos no restante da obra. Nolan nos convida, portanto, a tentar entender, tentativa também repetida pelo personagem principal, que a todo tempo busca situar-se na torrente de eventos e situações.

Por que, então, essa fala do início? E, por que, ao final, uma pergunta, feita de maneira jocosa pelo vilão (Kenneth Branagh) à sua esposa (Elizabeth Debicki), questionando se ela está compreendendo alguma coisa do que ele diz, pergunta do mesmo modo direcionada ao espectador? É verdade que há um certo humor em Tenet. E é verdade também que a figura e os planos mirabolantes do vilão interpretado por Brannagh aproxima o personagem de uma bem-vinda caricatura, adição que traz flexibilidade e leveza ao mundo realista e sóbrio do filme. Essas piscadelas ao público, contudo, parecem ser mais do que somente piadas internas, quebras de expectativas de um cineasta disposto a implodir comicamente todo o edifício que construiu.

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(Reprodução)

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Não, Nolan é sisudo e sóbrio demais para tais ousadias. E não me parece ser à toa que, entre as tramas complexas daqueles filmes mencionados anteriormente, a de Tenet seja a menos satisfatória e, portanto, a menos imersiva. Muito provavelmente, Nolan sabe das inúmeras deficiências do seu roteiro, das paredes impenetráveis que as noções de entropia reversa levantam entre os seus desdobramentos “dramáticos” e o público e, mais preocupante ainda, de que, no fundo, as idas e vindas no tempo são triviais e dispensáveis ao que é mostrado, donde surge o apelo ingênuo às sensações e emoções sem que ambas passem pelas exigências do intelecto.

Falta a Nolan a sensualidade formal dos surrealistas ou o estofo de um Andrei Tarkovsky para que a jornada por diferentes tempos se sustente para além do sentido, além da razão investigativa.  Claro, essas ausências não se referem a um desejo interno de que ele seja um diretor que não é e que não deseja ser. Não faria sentido analisá-lo sob essa ótica. Elas aparecem somente como o fortalecimento de um ponto, da constatação de que erguidas sob pernas mancas, as manipulações temporais de Tenet deixam um vazio que nada preenche.

O Protagonista, nomeado exatamente deste jeito, de acordo com sua função na história, é literalmente um anônimo ao qual cabe a tarefa de salvar o mundo. E é natural que, depois de ter explorado à exaustão o papel do herói na sua trilogia do Cavaleiro das Trevas, esse movimento de diluir a personalidade do personagem heroico, iniciado de forma bem-sucedida em Dunkirk (Idem, 2018), no qual o contexto de guerra comportava heróis desconhecidos, se intensificasse no projeto seguinte, mas Nolan sabota-o constantemente ao insistir na criação de elos entre o protagonista e os demais personagens, numa busca infrutífera por sentimentos que nunca vêm, dada a unidimensionalidade de todos (inclusive daqueles que iludem momentaneamente a partir de um verniz falso de complexidade ou ambiguidade, como o vilão e a sua esposa).

Essa insistência, por sua vez, não só é estéril como também incongruente, pois Nolan revela-se confuso e oscilante: ora pede que vejamos a maioria dos personagens como simples peças do seu quebra-cabeça, ora pede que nos importemos com os seus dramas e relações. Incongruência, aliás, também vista na comparação entre os inúmeros diálogos explicativos, usados como cordas que pretendem nos trazer para dentro da representação, e a estrutura geral, que nos sugere um abandono geral de compreensões totais (ou até parciais) para que, como passageiros, embarquemos numa viagem sem questionar os caminhos trilhados ou o destino que nos aguarda.

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(Reprodução)

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Mas como não questionar os caminhos trilhados se estes, ao tomarem a forma de sequências de ação, apresentam-se como algumas das menos inspiradas de toda a carreira de Nolan, ou, ao se vestirem com as roupas de um típico filme de espionagem, no estilo da franquia 007, oferecem subversões tímidas e pouco exploradas? E como não questionar o destino final quando, ao chegar nele (a batalha árida na cidade em destroços), conclui-se que os efeitos provenientes do tempo inverso são adereços, mera perfumaria que em nada altera a maneira como percebemos e lidamos com o tempo?

Tenet sofre com a avalanche de elementos que permeiam cada cena e sequência. E Nolan intensifica essa avalanche através de um ritmo que atropela tudo o que está à frente e que é reiteradamente martelada pela trilha sonora onipresente e indiscriminada. Mise en scène e montagem não respiram, pelo contrário, são sufocadas em “benefício” dos desdobramentos de uma história que, anulada em razão de sua obtusidade, nada dá a elas, apenas retira. O “formalismo” acaba se restringindo somente a cenas de ação que se vendem pelo realismo com que são filmadas, o qual não é suficiente para torná-las empolgantes ou surpreendentes.

Quando aposta em enredos emaranhados, dispostos numa ordem não cronológica ou difusa, Nolan precisa (pelo menos, é a impressão até o momento) que elas sejam engajantes e vividas por protagonistas com um mínimo de profundidade para que a soma final satisfaça, como em A Origem, o melhor entre os filmes dessa natureza realizados pelo diretor. Caso contrário, as pretensões tornam-se uma experiência sentimentalmente apelativa (Interestelar) ou oca (sua empreitada mais recente), já que a habilidade de Nolan como criador de formas sempre foi questionável e trôpega. Em Tenet, não há o que sentir e não há como imergir.

A curiosidade derradeira é que, muitas vezes considerado uma personalidade distinta e especial no deserto de ideias e talentos que é a Hollywood de hoje, Nolan juntou-se à mediocridade geral com seu filme atual. Uma vez que se tornou regra a produção descerebrada de espetáculos cinematográficos — em que a capacidade de transformar dinheiro em explosões, perseguições de carro e efeitos visuais aleatórios atrai mais do que o talento com que isso é feito e trabalhado na totalidade das obras em que esses elementos surgem —, o cineasta britânico sempre se destacou por sua engenhosidade e inteligência; o que não acontece em Tenet, apesar de sua falsa aparência de obra filosófica e científica. Troquemos o rebobinar de fita VHS por uniformes coloridos de super heróis e robôs gigantes e teremos o mesmo resultado.

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Miguel Forlin

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área.