Uma ode ao palhaço triste

por Laura Ferrazza de Lima

Entre os gêneros teatrais e literários classificados por Aristóteles na Poética, podemos encontrar dois que são aparentemente díspares, mas complementares: a tragédia e a comédia. Para o filósofo grego “tanto a tragédia quanto a comédia são artes de imitação”. Enquanto a primeira representa o homem mais elevado do que realmente é, mostrando, no entanto, o lado sombrio do ser humano, a outra deve representar o homem pior do que ele é na realidade, fazendo de seu rebaixamento motivo de riso. No teatro grego clássico encontramos esses gêneros em estado puro; mas, com o passar do tempo, eles começaram a se mesclar. Da dosagem entre o trágico e o cômico, surgiram obras imortais.

Tanto a tragédia como a comédia são máscaras sob as quais o homem esconde seus sentimentos conflitivos. Mas a arte de fazer rir pode ser ainda mais espinhosa e complexa do que a de fazer chorar. A capacidade de provocar o riso alheio é quase um dom; é preciso estudar o instante exato de falar com a mesma intensidade com que se decide o conteúdo a ser dito. É necessário ao cômico capturar com precisão o espírito do tempo e a cultura do lugar, pois aquilo que faz rir os gregos pode não agradar aos troianos. Entretanto, há na arte de fazer rir um elemento transgressor que pode atravessar os tempos e as culturas, fazendo com que algumas piadas vençam os séculos, transcendam o espaço e jamais percam a graça.

A imagem síntese das aspirações tragicômicas na arte e na literatura pode ser encontrada na figura do palhaço. Sua origem está, em parte, nos bobos da corte ? aqueles que deviam alegrar aos poderosos com tiradas ácidas e divertidas, mas que podiam também ser autênticos conselheiros reais; nas palavras desconjuntadas do Bobo, muitas vezes surge de relance a verdade que Lear não sabe ver. Por outro lado, o palhaço é aparentado às figuras-tipo do teatro: pierrôs, arlequins, colombinas, entre outros. Surgidas na Veneza do século XVI e associadas ao Carnaval ? tendo, portanto, um significado catártico ? as figuras-tipo transformaram-se nos personagens principais das comédias encenadas por trupes nas ruas e nos teatros da Europa moderna.

Gilles ou O Pierrô – Antoine Watteau, 1719

Foi na França dos séculos XVII e XVIII que as figuras-tipo atingiram seu apogeu e se cristalizaram, através da pena de teatrólogos do porte de Molière (1622 – 1673) e Marivaux (1688 – 1763). Assim, pierrôs, arlequins e colombinas dominavam os palcos encenando comédias de erros ao gosto da época, mas que se tornaram imortais e são representadas ainda hoje. A arte pictórica do período demonstra, também, o fascínio por esses personagens tragicômicos. Nessa época, sua representação na arte passou por uma profunda transformação. As figuras-tipo perderam seu caráter puramente caricato e burlesco, como representados nas pinturas e gravuras de Claude Gillot (1673 – 1722), para ganhar um ar pensativo e melancólico, percebido e cinzelado pela sensibilidade de um artista como Antoine Watteau (1684 – 1721).

Cena de “Master Andrew’s Tomb”. Claude Gillot, 1707

Assim foi forjado o palhaço contemporâneo, uma figura híbrida: misto dos tipos do carnaval veneziano, das figuras mambembes do teatro francês e italiano, do bobo da corte medieval e da tradição circense. Logo, foi possível perceber que por trás de uma fantasia e de uma maquiagem, fatores que conformam o personagem, está um ser humano complexo. E é essa reflexão que pude perceber no excelente filme nacional “Bingo: o rei das manhãs”. O diretor Daniel Rezende e o roteirista Luiz Bolognesi abordam com maestria a vida de um homem por trás da máscara. É a história do palhaço real Bozo ? chamado de Bingo no filme ?, que se perpetuou como um personagem inesquecível da televisão brasileira e da cultura pop nacional na década de 1980. O filme reconstrói a época com sensibilidade, mas evoca também o paradoxo sobre o qual esse texto lançou luz: a figura do palhaço triste.

Cenas do filme “Bingo: o rei das manhãs”

Percebido e representado na arte do século XVIII, o palhaço triste volta aqui num ambiente que relembra a infância, mas que não oculta as dores e delícias experimentadas por aquele que o encarna: o perspicaz ator Arlindo Barreto (vivido por Vladimir Brichta em interpretação memorável), que, em busca de glória, tem a chance de reviver no Brasil dos anos 80 esse personagem eterno. A história nos revela quantas são as concessões, os silêncios, os anseios, os vícios que o homem procura esconder atrás da fantasia que faz rir. O riso ou sua capacidade de fazer graça é muitas vezes fruto dos escapes desse disfarce, das agruras do homem real.

Cenas do filme “Bingo: o rei das manhãs”

No caso limite do filme, que me parece plausível, o ator esquece-se ou até mesmo perde-se de si mesmo no afã de doar-se completamente ao personagem e ao público. Como um Arlequim arrivista das peças teatrais de Marivaux, Arlindo ou Augusto Mendes, seu pseudônimo no filme, aposta todas suas fichas para levar ao topo da audiência um palhaço importado dos EUA e que ele adapta ao jeitinho brasileiro. A obrigação de manter sua verdadeira identidade no anonimato deixa um fundo amargo no gosto da vitória. Assim, o personagem toma conta do homem, e o homem se perde nele. O fundo de tristezas e frustrações, seu caminho até o topo que extrapola na euforia e no vício, tudo isso transborda a máscara e torna o personagem uma mistura soturna e bem-vinda dos gêneros que Aristóteles postulou.

Os demais personagens da trama contribuem para criar o clima de farsa teatral carnavalesca, mas com sua dose de melancolia. As referências familiares que lembram Augusto de quem ele realmente é, sua mãe e seu filho, acabam esquecidos quando ele perde sua identidade para o personagem. Na sua jornada profissional ele possui dois alter egos opostos, seu anjo, representado pela diretora do programa do qual ele é o protagonista, Lúcia (Leandra Leal), e seu demônio, personificado no câmera-man fanfarrão Vasconcelos (Augusto Madeira), que o apresenta ao mundo das drogas. Ambos empreendem veladamente uma disputa por sua alma. Não falta a presença de uma sedutora Colombina, encarnada na icônica cantora Gretchen (Emanuelle Araújo), capaz de enlouquecer a todos com seu rebolado.

Dessa jornada ao mesmo tempo cômica e trágica, fica-nos uma mensagem salutar: bancar o palhaço não é para qualquer um. O falecido ator Domingos Montagner faz uma ponta no filme, como uma espécie de palhaço-mestre, que ensina seu ofício ao protagonista da história e o ajuda a criar o “Bingo”. Ao apontar o nariz vermelho que caracteriza o palhaço, o personagem vivido por Montagner diz: “Essa é a menor das máscaras”. Realmente, ela não é suficiente para esconder a existência conflitiva daquele que a sustenta, mas a beleza dessa arte parece nascer exatamente da dificuldade sempre premente, sempre atual, de transformar o sofrimento em gargalhadas.

Laura Ferrazza

Laura Ferrazza é Doutora em História da Arte e História da Moda (PUCRS/Sorbonne). Professora/pesquisadora autônoma, ministra cursos livres.