Vita Nova: O amor de Dante Alighieri e Beatriz Portinari

por Sergio Duarte

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A Vita Nova é o relato em prosa e verso do amor de Dante por Beatriz Portinari, escrito na primeira pessoa. A narrativa começa a partir do instante em que ele a viu pela primeira vez quando tinha nove anos e ela quase a mesma  idade. Ambos somente voltaram a ver-se nove anos depois. No texto em prosa e nos poemas Dante descreve seus sentimentos em diversas ocasiões. Após a morte de Beatriz em 1290 o relato prossegue narrando o sofrimento pela perda irremediável e as dúvidas e angústias do poeta até que ele resolve nada mais dizer enquanto não puder falar dela “como jamais foi dito sobre mulher alguma”. Os 31 poemas da Vita Nova foram compostos entre 1282 e 1283, quando Dante tinha 17-18 anos de idade. Não se sabe ao certo a época da redação dos trechos em prosa, que introduzem cada poema, mas os estudiosos acreditam que seus 42 capítulos tenham sido escritos ao longo de alguns anos, entre 1295 e 1300, isto é, pouco antes que Dante se dedicasse à composição de sua obra principal, a Divina Comédia. Nesta, a figura de Beatriz reaparece e o recebe no Paraíso.  O tradutor reuniu abaixo trechos significativos da Vita Nova e alguns dos sonetos incluídos na obra.

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Henry Holiday, ‘Dante and Beatrice’, 1883

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 A Vita Nova se inicia com as seguintes palavras:

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 “Na parte do livro de minha memória antes da qual muito pouco se pode ler há uma anotação que diz: Incipit vita nova. Sob ela encontro escritas as palavras que pretendo juntar neste livrinho; senão todas, pelo menos sua essência. […] Já nove vezes depois de meu nascimento a luz que vem do céu havia retornado quase ao mesmo ponto, por força de seu giro, quando ante meus olhos apareceu pela primeira vez a mulher gloriosa de minha mente, a qual muitos chamavam Beatriz sem saber o que significava chamá-la assim. Durante o tempo de sua vida o céu estrelado já se movera para o oriente a duodécima parte de um grau, de forma que ela me surgiu quase no início de seu nono ano de vida e eu a vi quase ao final de meus nove anos. Surgiu vestida das cores mais nobres, de maneira recatada e honesta, cingida e ornada como convinha a sua pouca idade. Naquele momento digo honestamente que o espírito da vida, que habita a mais secreta câmara do coração, começou a estremecer tão fortemente que eu podia senti-lo na mínima pulsação; e tremendo eu disse estas palavras: Eis um deus mais poderoso do que eu, que vem para me dominar.”

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Mais adiante, o poeta narra o segundo encontro e a extraordinária visão que esse acontecimento lhe trouxe à mente e  em seguida transcreve o soneto que compôs ao despertar.

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“Nove anos já haviam passado quando novamente aquela mulher graciosíssima me surgiu em companhia de outras duas senhoras; e voltando os olhos para mim saudou-me de tal maneira que me encheu de felicidade. Era a nona hora do dia, e voltando à solidão de meu quarto comecei a pensar nela. Adormeci suavemente e em sonho tive uma maravilhosa visão.” 

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Em outro trecho da Vita Nova, Dante descreve os sentimentos que uma simples saudação de Beatriz fazia brotar em seu coração:

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“Quando ela surgia em algum lugar sua saudação acendia em mim uma chama de bondade que me fazia perdoar quem quer que me ofendesse; e se alguém me fizesse qualquer pergunta, minha resposta seria: ‘Amor’, com expressão de humildade no rosto. E quando essa mulher gentilíssima me cumprimentava, a doçura me dominava de tal maneira que meu corpo ficava inteiramente a sua mercê. Toda a minha felicidade estava contida naquele cumprimento, que inundava todo o meu ser.”

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O poeta decide então dedicar-se integralmente a exaltar a beleza e as qualidades morais de Beatriz:

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 “Propus-me então a tratar somente do louvor àquela graciosíssima mulher. Escrevi alguns poemas sobre sua beleza e nobres qualidades e tive vontade de dizer, ainda como louvor a ela, palavras pelas quais mostrasse como esse Amor desperta por meio dela e como não somente desperta onde se encontra adormecido, mas também onde existe apenas potencialmente, quando ela o faz miraculosamente existir.”

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Em um soneto seguinte, o deus do Amor revela que Beatriz é a própria personificação do sentimento amoroso:

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“Um dia, descansando pensativo em certo lugar, senti um estremecimento em meu coração e vi que se aproximava de mim uma jovem famosa por sua beleza, chamada Giovanna,  a quem também chamavam Primavera. Em companhia dela também vinha a graciosíssima Beatriz. Pareceu-me também que Amor em seguida me dizia estas palavras: ‘Quem meditar cuidadosamente chamará a Beatriz com o nome Amor, porque ela tem muita semelhança comigo’.” 

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Apaixonado, o poeta não se cansa de louvar as virtudes miraculosas de sua amada:

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“Essa belíssima mulher era tão admirada por todos que quando passava pelas ruas as pessoas corriam para vê-la. Ela seguia, coroada e vestida de humildade, sem demonstrar arrogância pelo que via e ouvia. Aqueles de quem ela se aproximava sentiam no coração tanta nobreza que não se atreviam a erguer os olhos e nem a corresponder à saudação dela. Muitos diziam, depois que ela passava: ‘Não é uma mulher, e sim um dos maravilhosos anjos do céu’.”

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Ao receber a notícia da morte de Beatriz, Dante compôs um soneto que pudesse servir de consolação:

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“Um dia, sentindo-me enfermo e débil, comecei a pensar em minha amada e em sonho imaginei que o sol se escurecia e as estrelas pareciam chorar de pena; um amigo se aproximou e disse: ‘Não soubeste? A maravilhosa mulher que amas acaba de deixar esta vida’. E em minha fantasia a vi no leito de morte, parecendo dizer: ‘Começo a ver o princípio da paz’. […] Eu havia começado a compor uma nova canzone quando o Senhor da Justiça chamou essa nobilíssima mulher a sua glória. Para amenizar minha tristeza escrevi algumas palavras que falassem dela, a fim de que a dor não destruísse minha alma.”

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Após descrever em prosa e verso nos capítulos restantes da Vita Nova a dor pela ausência da amada e o arrependimento pelas dúvidas que experimentara, o poeta finalmente encontra consolo na ideia de que poderá revê-la algum dia no Céu:

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“Pareceu-me então ver surgir a gloriosa Beatriz, tão juvenil como quando a vira pela primeira vez. Meu coração se arrependeu do desejo pelo qual tão vergonhosamente se deixara dominar. Aquela maravilhosa visão me fez perceber que não deveria dizer mais nada a respeito dessa mulher bem-aventurada enquanto não pudesse falar dela mais dignamente. E para isso me esforço, como ela sem dúvida sabe. Espero dizer sobre ela o que nunca antes foi dito sobre mulher alguma. E queira o Senhor que minha alma possa vir a encontrar minha amada, que na glória celeste contempla o rosto daquele que é bendito pelos séculos dos séculos”.

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Beatriz e Virgílio no Inferno de Dante, em ilustração de Gustave Doré

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Sergio Duarte

Sergio Duarte é embaixador, ex-Alto Representante das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento, Presidente das Conferências Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais.