Et Foras Ploravit, por José Francisco Botelho

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Seis vezes tu me negarás

A negação de Pedro pelo poeta José Francisco Botelho e seu tradutor Wladimir Saldanha

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Gullar nos apontou o espanto como o caminho das pedras da arte poética. Gosto de entender esse espanto como o breve instante em que as coisas abandonam sua inércia cotidiana e se deixam ver como realmente são. Do espanto decorre a engenharia do verso, que, como qualquer expressão artística, é vinculada a um repertório técnico que inspiração nenhuma entrega de bandeja. Por esse motivo, é certo que o poema nem sempre fará jus ao espanto com que foi arquitetado: só o bom poeta saberá não apenas apreender o espanto sem se deixar sucumbir, mas também o transpor em sua escrita para que o leitor tenha, se não a mesma, uma experiência estética análoga à sua.

Se, a essa altura da poesia brasileira pós-cabralina, ainda ouso cogitar uma força motriz imaterial do verso, é apenas porque “Et Foras Ploravit”, de José Francisco Botelho, é em muitos sentidos um poema de espanto: não apenas por aquele inerente ao tema abordado — o cantar fatídico do galo na alvorada, o olhar de Cristo firmando Pedro em sua própria cruz —, mas também pelo frescor poético, pela precisão narrativa com que se reconta o episódio bíblico. Ora, se já o conhecemos tão bem pelos livros de Marcos, Lucas e João, é no livro de Botelho que encontraremos a mansa e afiada reprimenda de Jesus ao ímpeto de Pedro (“Tens muito o que fazer, mas não assim”), a rica descrição do entorno em consonância com a psique das personagens (“Nos ermos, o chacal sentia fome,/ E o mocho tinha os olhos muito abertos”), a curiosa nota linguística ao sotaque do discípulo (“Pois todo galileu arrasta o esse”), as pontuais e sugestivas aliterações (“Que concenTRa os anéis n’água enCRespada,/ Ou a BRasa cenTRal que agita o fogo”, “Quando Temos as CosTas chiCoTeadas”), as hábeis interposições de cena (“(Porém, naquele instante, Caifás, // Hirsuto, à luz da tocha, ergueu a mão.)”), as imagens que nada devem ao chiaroscuro de um Caravaggio (“Feito um braseiro obscuro, a noite ardia”, “Sombria luz ou clara escuridão”)… Isso, me detendo apenas à primeira parte do poema. O que se dá na segunda é a transformação da narrativa em uma reflexão acerca da natureza humana que, embora de origem bíblica, é universal: o relato do evangelho ressurge na perspectiva de um sujeito que, em sua hora derradeira, faz do espanto sua extrema-unção.

Em suma, o poema de José Francisco Botelho transporta o texto bíblico para os domínios da arte literária e, ao mesclar poesia e narrativa, o faz como alguém criado sob a influência das trovas gaúchas e cuja formação literária passa invariavelmente pelos épicos clássicos e populares desta e de outras línguas. E menos não se esperaria do escritor multifacetado que é Botelho, autor dos livros de contos A árvore que falava aramaico (2014) e Cavalos de Cronos (2018), ambos pela editora Zouk, e célebre tradutor de Shakespeare e Chaucer, que lhe renderam inclusive alguns jabutis.

Chico — me arrogo essa liberdade agora —, em Cavalos de Cronos,  já nos deu amostras de sua inclinação aos versos narrativos com as obras “Simeão do Deserto” e “Romance do Cativo e da Mourisca”, mas é em seu novo livro de poesia que ele se firma como um dos bem-sucedidos cultores do gênero, pouco apreciado pela literatura contemporânea brasileira: E tu serás um ermo novamente, recém-lançado pela Editora Patuá, nos brinda não apenas com poemas da estirpe de “Et Foras Ploravit”, mas com outros que expandem o universo construído ao longo de seus anos de escrita.

Algumas palavras, agora, sobre a tradução desse poema, ao francês, realizada por Wladimir Saldanha. Se o desafio do poeta é, apreendido o espanto, transcrevê-lo para que seu leitor não saia de mãos vazias, o desafio do tradutor de poesia é reconstituir esse espanto como possa, aclimatando-o à língua de chegada, o que implica pensar não apenas em contrastes vocabulares, mas prosódicos e culturais. Claro, há casos e casos: cada texto vem com sua própria lista de exigências, e cabe ao tradutor pesar o que é indispensável e do que poderá abrir mão sem perdas significativas. É quase como transcrever para violão uma ária originalmente escrita para violoncelo: a composição deverá se adequar ao novo instrumento, usando suas limitações e peculiaridades a seu favor, sem perder de vista a individualidade da peça.

O pulo do gato, em se tratando desse ofício, é que, para além do bilinguismo necessário, tanto melhor traduzirá poesia quem melhor entenda de poesia, isto é, quem domine as técnicas da escrita poética. Se o poema traduzido é isso — um poema —, ninguém melhor que um poeta para atender a seus apelos, e Wladimir Saldanha é um poeta de peso: autor do premiado O Natal de Herodes (Mondrongo, 2017), Saldanha não só bebe na fonte dos franceses como lhes retribui o favor vertendo poesia brasileira ao idioma de Verlaine. Publicou em 2019 também pela Mondrongo a antologia bilíngue português-francês Poesia brasileira em contracorrente e já prepara um segundo volume, que sua tradução de “Et Foras Ploravit” deverá integrar. Ao traduzi-lo, Wladimir logrou transplantar no idioma de chegada elementos sem os quais o contraste entre forma e conteúdo da poesia narrativa de Botelho seria diluído, tais como as rimas, ora consoantes, ora toantes, e a regularidade métrica.

Fazendo justiça ao tradutor de poesia, não raro esquecido pelo público, dê-se a ele um espanto para chamar de seu: aquele do leitor calejado da pelejas entre versos e línguas, para o qual a grande tradução de um grande poema significa também uma grande conquista para todos os envolvidos. Este Pedro, ao menos, não o pode negar.

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Pedro Mohallem

Poeta e tradutor. Autor de Véspera; Debris (Patuá, 2019)

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A negação de Pedro por Caravaggio

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ET  FORAS  PLORAVIT

de José Francisco Botelho

 

I.

“Três vezes esta noite negarás

Meu nome”, disse a voz suave e terrível,

E Pedro respondeu: “É impossível.”

(Porém, naquele instante, Caifás,

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Hirsuto, à luz da tocha, ergueu a mão.)

Terrível, suave, a Voz tornou: “Amigo,

Antes que o galo cante, isto eu te digo,

Três vezes ao meu nome dirás não.”

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Mais tarde, em meio ao horto cor de lua,

Emboscou-os a armada companhia.

Querendo comprovar sua valentia,

Pedro investiu, brandindo a espada nua.

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Parece que era bom espadachim,

Pois, dum golpe, uma orelha foi cortada.

Mas a voz o deteve: “Baixa a espada.

Tens muito o que fazer, mas não assim.”

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Prosseguiu a coorte em meio às trevas,

Na senda que a Jerusalém descia.

Mas Pedro foi seguindo a companhia,

Guiado pelo claro das lanternas.

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O grupo que avançava, e o homem sujo

De sangue e suor, a pé na trilha escura,

Eram parte da noite convoluta

E estranha que cobria meio mundo.

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Porém a parte dominava o todo,

Como a pedra num lago arremessada

Que concentra os anéis n’água encrespada,

Ou a brasa central que agita o fogo.

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Feito um braseiro obscuro, a noite ardia;

Girava a água do Tempo, obscuramente;

As horas surdas eram sua torrente,

Seu torvelinho, a véspera do Dia.

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Mas sobre a inquietude perdurava

Um enorme silêncio, quase inteiro.

Somente no Sinédrio se escutava

Grito e murmúrio. Os servos, no terreiro,

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Acenderam um fogo. Estava frio.

Pedro seguira o bando até o portão;

Sentou-se junto ao fogo. E ali, no chão,

Deixou pender o olhar fundo e vazio.

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Vagava em desusada distração

Desde que seu rabino fora preso:

Difusa mescla de leveza e peso,

Sombria luz ou clara escuridão.

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Na bainha, dormia a espada vã,

E sua mente escapava pelas margens,

Derramando-se além dos arrabaldes,

Às vastidões, à espera da manhã.

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Nos ermos, o chacal sentia fome,

E o mocho tinha os olhos muito abertos.

Arquejavam florestas e desertos

Nessa noite em que o mundo estava insone.

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E já sentia Pedro não ser Pedro,

Apenas mais um náufrago noturno.

E qual de nós, de espírito soturno,

Já não sentiu ser outro, embora o mesmo?

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E assim Pedro fitava as frágeis tramas

De faíscas e sombra, absortamente,

Quando uma serva, ao lado, de repente,

Inclinou-se e o fitou à luz das chamas.

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“Eu te conheço. Andavas anteontem

No templo, com aquele galileu”.

Pedro, emerso do sono, estremeceu

E disse:  “Eu não conheço aquele homem.”

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Do outro lado do fogo, um almocreve

Ouvindo-o, riu e disse: “Companheiro,

Teu sotaque te entrega por inteiro,

Pois todo galileu arrasta o esse.”

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Pedro ergueu-se. A fogueira crepitava.

“Não sei do que me fala esse lacaio”.

Dito isso, afastou-se pelo pátio,

Vendo as sombras minguar. E o céu clareava.

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Pedro espiou, à porta do salão:

Lá dentro, um vulto, seminu, de costas,

Sob insultos e cuspes, as mãos postas

Em dois grilhões, olhava para o chão.

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Alguém esbarra em Pedro, bruscamente,

E o fita bem no rosto. É um dos guardas.

“Eu te conheço. Ergueste a tua espada

No horto, e parecias mais valente.”

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“Não era eu”, diz Pedro. “Não sei nada…”

Mas sua voz se corta: um veio claro

Percorre o céu cinzento, e ao longe o claro

Cantar do galo fere a madrugada.

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Um galo só, distante talismã

De um arrabalde estranho, estranho e longe,

Cantando o sol antes que o sol desponte:

O invisível senhor da antemanhã.

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Acorrentado e nu, Jesus voltou

O rosto para Pedro. E a luz se erguia.

Pedro fugiu, fugiu na aurora fria,

Correu à viela escura e lá chorou.

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II.

Qual deles era Pedro? O que cortou

O rosto do inimigo no jardim,

Ou este, que três vezes renegou

O Nome, antes que a noite chegue ao fim?

Mas poderia Pedro ser a Pedra

Onde todos, valentes e covardes,

Em meio à noite grande e às fundas trevas,

Vêm inclinar as maltratadas faces,

Se não houvesse em Pedro esses dois Pedros,

O que enfrentou a multidão armada,

E o que, aos tropeços, foi-se noite adentro

Para chorar sobre a calçada amarga?

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Um homem vive a vida sem saber

Quem é, nem mesmo se existiu de fato,

E adentra a Eternidade sem prever

O que vai encontrar do outro lado.

Mas quando nossas roupas são rasgadas,

E nos cospem, nos tiram pelo chão,

Quando temos as costas chicoteadas,

Arrebentando músculo e tendão,

E o mundo inteiro escorre pelo corpo

Transformado em saliva e sangue e suor,

E o que somos é um velho galho torto,

Amarrado num varapau maior,

E a pele ardida se recolhe e se abre,

E a carne surge à brisa da manhã,

Toda palavra é sal, fel e vinagre,

Toda memória é convoluta e vã

— E ao homem resta apenas seu Pecado,

Que é a mesma Virtude à contraluz.

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Isso Pedro entendeu, ao ser pregado

De cabeça pra baixo em sua cruz.

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ET FORAS PLORAVIT
(ET IL PLEURA DEHORS)

de Wladimir Saldanha

I.

“Toi, par trois fois cette nuit, tu nieras

Mon nom”, dit la voix douce et terrible,

Et Pierre répondit “C’est impossible.”

(Pourtant, Caïphe,  à cet instant-là

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Hirsute, dans l’ombre, la main sur le front.)

Terrible, douce, la Voix souffla : “Ami,

Avant le chant du coq, je te dis,

Trois fois à mon nom tu diras non.”

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Plus tard, au jardin couleur de lune,

Tout autour embusquée par l’armée.

Voulant prouver sa témérité,

Pierre, fier, a brandi son épée nue.

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Bon épéiste semble-t-il être

Car, d’un coup, une oreille fut coupée.

Mais la Voix le retint: “Baisse l’épée.

L’autre voie, sans violence il te faut être.

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La cohorte au milieu des ténèbres,

Vers Jérusalem, sur le sentier qui descend.

Mais Pierre a suivi le régiment,

Guidé par la lueur des lanternes.

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Le groupe avançant, et l’homme immonde,

Sang et sueur, à pied sur le sentier,

S’unissaient à la nuit repliée

Et étrange couvrant la moitié du monde.

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Or, le singulier régnait en dieu,

Tel que la pierre sur le lac lancée

Qui concentre en vague l’eau agitée,

Ou le brasier qui agite le feu.

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La nuit flamboyait, brasier obscure;

S’écoulait l’eau du Temps, sombrement,

Les heures sourdes en étaient le torrent,

Son propre tourbillon, la veille du Jour.

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Pourtant sur l’inquiétude perdurait

Un énorme silence, presque unique.

Du grand Sanhédrin, seul s’entendaient

Cri et murmure. Quelques domestiques

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Allumèrent un feu. Il faisait froid.

Au portail, les avait suivis Pierre

Et s’est assis près du feu. Par terre,

Gît son regard vide de désarroi.

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Déambulait en une grande torpeur

Depuis la prison du Christ : mélange

Diffus de légèreté et lourdeur,

Claire obscurité et ombre des anges.

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Dans le fourreau, dormait l’épée vaine,

Son esprit échappait par les bords,

Se répandant par-delà les plaines,

Vastes étendues, attendantl’aurore.

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Au confins, le chacal avait faim,

Et la chouette avait les yeux ouverts.

Haletants forêts et déserts

De ce monde nocturne sans entrain.

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Et Pierre ne se sentait plus Pierre, blême,

Rien de plus qu’un naufragé nocturne.

Et qui donc d’entre nous, taciturne,

Ne se sentit autre, bien que lui-même ?

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Et Pierre observait les fragiles trames

D’étincelles et d’ombre, les yeux perdus.

Quand une femme, à côté, tout à coup,

S’est penchée à la lueur des flammes:

…….

“Je t’ai vu. Avant-hier, tu marchais

Dans le temple, avec le Galiléen.”

Pierre, surgissant du sommeil, tremblait

Et dit: “Je le connais pas, enfin.”

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De l’autre côté, un charretier

L’écoutant, rit et dit: “Compagnon,

Ton accent te dénonce tout entier,

Puisque tous les Galiléens l’ont.

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Pierre s’est levé. Le feu crépitait.

“Je sais pas de quoi parle cet idiot”.

Juste après, il fut vers le patio,

Ombres mourantes, le ciel s’éclaircissait.

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Pierre a épié, à la porte en fer:

Dedans, un homme, de dos, semi-nu,

Sous de gros crachats et des insultes,

Tout enchaîné, regardait par terre.

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Et quelqu’un bouscule Pierre, brusquement,

Le dévisage. C’est un militaire.

“Je t’ai vu, plus tôt, l’épée en l’air,

Au jardin, tu semblais plus vaillant.”

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“Ce n‘était pas moi. Je ne sais rien…”

Mais sa voix se coupe: un filon clair

Parcours le ciel grisâtre, et le clair

Chant du coq déchire la nuit, au loin.

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Un seul coq, talisman distant

D’une étrange plaine, étrange et lointaine,

Chantant le soleil avant qu’il vienne:

L’invisible maître du jour rayonnant.

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Enchaîné et nu, Jésus revient

Le visage vers Pierre. Et la lueur

S’élève, Pierre fuit dans le froid matin,

Court dans la ruelle obscure et pleure.

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II.

Lequel est Pierre ? Celui qui a blessé

La face de l’ennemi au jardin,

Ou celui qui par trois fois a nié

Le Nom, avant que la nuit prenne fin ?

Mais Pierre pourrait-il être la pierre

Sur laquelle tous, courageux et lâches,

Dans la nuit et les ténèbres austères,

Viennent pencher leur affligé visage,

S’il n’y avait en Pierre, ces deux Pierres,

Celui affrontant la foule armée,

Et celui, titubant, qui est allé

Dehors, pleurer sur le sol amer ?

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Un homme vit sa propre vie sans savoir

Qui il est, ni même s’il a existé,

Rentre dans l’Éternité sans prévoir

Ce qu’il va trouver de l’autre côté.

Mais quand nos habits sont déchirés,

Sous les crachats, à terre, coups, jurons,

Quand nous avons tout le dos fouetté,

Arrachant les muscles et les tendons,

Et le monde entier coule par le corps

Changé en salive, sang et sueur,

N’étant plus qu’une vieille branche qui se tord

Arrangé en une perche de douleur,

Et la peau ardente se ferme et s’ouvre,

La chair venant au vent du matin,

Toute parole est sel, bile et vinaigre,

Tout souvenir est replié et vain

Et ne reste à l’homme que son Péché,

Ou la même Vertu en contrepoids.

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Cela, Pierre l’a bien compris, cloué

La tête à l’envers sur sa propre croix.

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A negação de Pedro por Rembrandt

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