Conversas geniais: quando Dom Pedro I conheceu Rossini

Dom Pedro I em retrato do pintor Simplício Rodrigues de Sá

 por João Villaverde

Como vive um ex-imperador? O que pensa e como consegue acordar todas as manhãs, desfrutar do desjejum e seguir adiante, depois de ter sido a voz mais importante de um império que consistia na maior nação da América do Sul e também na ponta ibérica da Europa ocidental? Tendo apenas 33 anos, Pedro de Alcântara, o alvo dessa inquietação inicial, estava no auge do vigor físico. Mas tendo abdicado do trono de Portugal em favor da filha e do trono brasileiro, em favor do filho, estava em Paris, sem império e ainda tendo seu país natal sob assalto de Dom Miguel, o irmão que proibia seu retorno a Lisboa.

Pedro de Alcântara, o Dom Pedro I, acordava para conspirar. Todos os dias, em Paris, Pedro traçava planos de ocupar Portugal e retomar o país que, entendia, ser seu de direito, não do irmão. Pedro então se encontrava com representantes dos governos amigos, como Inglaterra e a própria França, então governada por seu primo Luís Felipe I, na tentativa de formar um cordão de apoio diplomático imediato caso fosse bem-sucedido. Ele também se reunia com financistas para obter recursos para pagar soldados e equipamentos para chegar a Portugal.

Mas nem sempre sua agenda secreta de batalha estava cheia.

Sobrava tempo para o ex-imperador ir para a Ópera de Paris, em especial ao Théâtre Italien. Pedro e sua esposa eram assíduos frequentadores. Ao bater ponto no teatro, Pedro inevitavelmente conheceu pessoalmente Gioachino Rossini, o grande mestre da ópera, que naquele período morava na capital francesa.

Estamos no segundo semestre de 1831. Louis Daguerre e Nicephore Niepce experimentavam as primeiras fotografias. Auguste Comte publicava os primeiros capítulos de sua filosofia positivista. Tocqueville acabara de embarcar para os Estados Unidos, onde visitaria inicialmente presídios na Filadélfia, mas terminaria por entregar um profundo estudo sociológico com gigantesco impacto sobre as ciências sociais. Charles Darwin embarcaria em dezembro para sua viagem de exploração pelo mundo a bordo do HMS Beagle, um mês depois de, na Alemanha, falecer o filósofo Georg Friedrich Hegel.

Neste período, entre julho e dezembro de 1831, o ex-imperador Pedro de Alcântara acompanhava óperas e mais óperas, matando a saudade dos anos no Rio de Janeiro, quando ele mesmo se arriscava na composição de peças musicais. Pedro, afinal, havia composto a versão final de “Hino da Independência” para o poema de Evaristo da Veiga (“Brava gente brasileira…”).

Decidido a se arriscar e confiando na educação do austríaco Sigismund von Neukomm, Pedro compôs uma pequena cavata e enviou a Rossini, que a trabalhou e a apresentou na Ópera de Paris. Como o ex-Dom Pedro I reagiu ao ver seu trabalho executado em seu teatro preferido depois de organizado por um dos maiores compositores da história?

A chegada da primeira tradução completa para o inglês de uma obra clássica nos permite, agora, saber, a partir de fontes primárias.

“Ele parecia estar muito feliz em seu assento”, lembrou Rossini, completando que “ele me agradeceu de forma muito amistosa depois”. Neukomm achava que Pedro teria capacidade de conduzir ele mesmo a cavatina. Hiller, por fim, disse que Pedro estava tão exultante que dissera ter sido a experiência mais feliz de toda a sua vida. “Tamanha alegria para um homem que acabara de perder um império era algo estranho”, dissera Hiller, a partir de falas da condessa que acompanhara o ex-Dom Pedro I.

Os diálogos entre os três, o italiano Rossini, o austríaco Neukomm e o alemão Hiller fazem parte da incrível entrevista feita pelo último com o primeiro em 1855, quando Rossini voltara a viver na França depois de passar 17 anos na Itália. Publicados à época na Alemanha, somente no fim de 2018, há menos de um ano, portanto, essas conversas entre Hiller e Rossini foram recuperadas e publicadas na íntegra em inglês, pelo editor Richard Osborne. Responsável por uma cuidadosa edição na Pallas Athene, Osborne traz um importante achado historiográfico para um público maior em Conversations with Rossini (Pallas Athene, 2018)

Este ensaísta que aqui escreve para o Estado da Arte encontrou sua cópia do livro no segundo andar da livraria Foyles, em Londres, num raro lapso de sorte durante uma viagem de trabalho, mas o livro também pode ser facilmente encontrado na Amazon. Uma tradução para o português parece ser urgente, especialmente para os fãs de ópera, de música erudita e de Rossini, em particular. Também os apaixonados por livros que trazem boas conversas entre amigos vão se deliciar. Feita a pequena digressão pessoal, voltemos ao que importa.

Ferdinand Hiller tinha 54 anos quando, acompanhado de sua esposa Antonka Hiller, foi passar férias em Trouville, junto de Rossini, com 63, e sua segunda esposa, Olympe, recém-chegados a França depois da longa temporada italiana. Rossini atravessara um bloqueio criativo e uma depressão. Olympe, estonteante e socialmente vibrante, mantera o grande compositor afastado de pensamentos sinistros. A volta a França fizera do casal mais forte e Rossini estava prestes a explodir criativamente mais uma vez, para sorte de quem gosta de boa música.

Aquele ano de 1855 era especial para o autor da mais bela ópera bufa já criada (a versão de O Barbeiro de Sevilha).

Rossini passeava com Hiller pelos campos de Trouville conversando. A cidade seria, anos mais tarde, base de passeios também dos escritores Gustave Flaubert e Marcel Proust.

Ao final dos dias de setembro de 1855, Hiller anotava tudo o que conversara com Rossini. Encontravam generais em férias e outras personalidades das artes e da política. Uma delas fora justamente Neukomm.

Para o leitor deste século XXI compreender adequadamente, Neukomm era, naquele momento, uma espécie de Mick Jagger. Soa esdrúxula a comparação, claro, até porque estamos aqui uma centena de anos antes do surgimento da indústria cultural de massas. Mas o argumento deste ensaísta neste ponto é, tal qual o líder dos Rolling Stones, que perambula o mundo há mais de cinco décadas consecutivas, Neukomm fizera o mesmo entre 1810 e sua morte, em 1858. Diferentes gerações em países tão distintos como Brasil, Áustria, Rússia, França e Alemanha o veneraram em vida. Começou como discípulo do gigante da música erudita Joseph Haydn, sendo depois adotado pelo habilidoso político e ministro francês Tayllerand. Quando o rei Luís XVIII e sua família voltaram a Paris, encerrado período que vai da Revolução Francesa ao ocaso de Napoleão Bonaparte, em 1814, foi recebido pela execução de um “Te Deum”, composto e regido por Neukomm em pessoa, dentro da Igreja de Notre Dame. No ano seguinte, Neukomm seria o responsável pelo programa musical do Congresso de Viena, quando imperadores e reis se reuniram para dividir geograficamente o continente.

Já em 1816, o rei português Dom João VI, que governava do Brasil há oito anos, levou Neukomm para morar no Rio de Janeiro e ensinar o príncipe Pedro de Alcântara a gostar de boa música. Por cinco anos, Neukomm viveu no Brasil, tendo não só ensinado Pedro como também Francisco Manuel da Silva (o autor de nosso hino nacional), além de ter regido diversas apresentações que, lamentavelmente, carecem registro organizado. De volta a Paris no fim de 1821, o compositor austríaco, muito reconhecido em vida, passou a viajar à Europa para apresentar seu trabalho, tendo depois se fixado em São Petersburgo por anos.

Em setembro de 1855, Neukomm fora visitar amigos em Trouville e deu de cara com Hiller e Rossini caminhando. Eles se conheciam  há 25 anos. O trabalho de Neukomm para a duquesa de Vaudemont (composta em harpa éolica, anota Osborne) e o financiamento do banqueiro espanhol Alejandro Maria, que também bancara uma parte do trabalho de Rossini, eram de grande estima para Hiller. No entanto, depois de seu falecimento em 1858 (apenas três anos depois de encontrar Hiller e Rossini em Trouville), Neukomm estaria esquecido. Imagine esquecer Mick Jagger, caro leitor?

Bem, estamos numa manhã de setembro de 1855 quando Rossini, Hiller e Neukomm conversam sobre a impressionante capacidade de trabalho do austríaco (algo especialmente chamativo dado que Rossini estava há décadas sem produzir) e então o rei da ópera pergunta a Neukomm sobre os anos vivendo no Brasil. Segue, então, o diálogo entre os três, com tradução deste ensaísta sobre o texto em inglês de Osborne:

NEUKOMM: Eu aceitei o posto de mestre de capela como professor do jovem príncipe Pedro, que tinha verdadeiro amor pela música. Ele foi devotado ao ponto de compor por conta própria.

ROSSINI: Ele foi muito generoso ao me enviar uma condecoração (Rossini foi condecorado Cavaleiro da Ordem da Cruz do Sul). Depois, quando ele chegou em Paris, de alguma forma contra a sua vontade, eu o agradeci por aquilo. Como eu tinha ouvido falar sobre as composições de sua autoria, propus que ele deveria apresentar algumas delas no Theatre Italien, uma proposta que ele aceitou com muito gosto.

NEUKOMM: Ele teria conduzido por conta própria se você tivesse perguntado!

ROSSINI: Não era possível! Ele me enviou a cavatina, que eu adicionei uma explosão de tons de trombone. Teve uma boa perfomance no Theatre Italien e foi bem recebida. Dom Pedro parecia muito feliz sentado em sua box. De qualquer forma, ele me agradeceu de forma muito amistosa depois.

HILLER: Eu me lembro da Condessa B me contar como Dom Pedro chegou nas Tulherias totalmente desfigurado naquela noite. Ele disse ter sido a experiência mais feliz de toda a sua vida. A condessa disse que, para um homem que acabara de perder um império, aquelas demonstrações de entusiasmo eram até estranhas. Eu sugeri a ela que as coisas mais importantes da vida não necessariamente são aquelas que nos proporcionam o maior prazer.

O diálogo com Neukomm se encerra com a partida dele, mas Hiller e Rossini continuam a conversar passeando ou em cafés. Conversam sobre boa música, mas também sobre músicos com péssimo hábito de não tomar banho (o ensaísta não cometerá spoilers neste sentido) e sobre método. Me chamou especial atenção uma resposta de Rossini em que o rei da ópera deixa claro que ele precisava de um estímulo, de uma encomenda, para produzir: apenas produzir por produzir não o motivava. Um lado muito humano, realista, que afasta a típica narrativa do gênio cuja arte explode dentro de si.

Gioachino Rossini

As conversas são todas baseadas nas várias perguntas de Hiller, que admite, em determinado ponto, que “devo soar como se eu fosse um informante da polícia secreta”.

Dom Pedro I não é o único imperador mencionado nas diversas conversas, que incluem também um papo sobre um imperador musical: Beethoven. Rossini contaria mais tarde (a Richard Wagner) de seu único encontro com o alemão, que já estava completamente surdo, mas continuava devorando música a partir de partituras, que traziam os sons para sua cabeça. Pouco afeito a óperas, Beethoven, no entanto, disse a Rossini que fizesse “mais trabalhos como o Barbeiro”, em referência, claro, a O Barbeiro de Sevilha.

Para Hiller, por outro lado, Rossini apenas menciona, com bom humor, que o encontro com Beethoven ocorrera em Viena e foi breve em duração porque o italiano não entendia uma palavra de alemão e Beethoven, surdo, pouco poderia entender do interlocutor.

Que o leitor deste ensaio não se engane: Rossini não está lá a conversar apenas com um fã devotado com boa capacidade de charme para fazê-lo falar. Não. Ferdinand Hiller era dono de uma personalidade incrível e, além disso, fora um grande pianista  — possivelmente seria um dos maiores do século XIX se não tivesse o infortúnio de ser de rigorosamente a mesma geração de Schumann. Aliás, como lembra Osborne no atento trabalho de editor, Schumann dedicou a Hiller o seu concerto de piano em lá menor. Mas era afastado do teclado que Hiller brilhava mais: sua casa com Antonka em Dresden recebeu visitas periódicas de todo tipo de personalidade na década de 1840, de Wagner a Chopin, passando pelo revolucionário russo Mikhail Bakunin.

O ensaísta poderia gastar ainda mais algumas linhas e, com elas, a paciência do leitor, para apresentar outras conversas deliciosas e outros detalhes, mas seria o caso de alterar a denominação de ensaio para resumo, algo que um livro tão precioso como este editado por Osborne não merece. Seu destino é ser lido na íntegra.

João Villaverde é jornalista, mestre em Administração Pública e Governo (FGV-SP) e autor do livro-reportagem “Perigosas Pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil” (Geração, 2016). Periodicamente comete ensaios e resenhas sobre música e cinema. É também culpado pelo podcast “Jornalistas À Paisana”.