Procurando Homero

‘Homero’, de Barbara Graziosi, é um livro com dois objetivos principais. O primeiro é facilitar a compreensão da Ilíada e da Odisseia fornecendo um guia sucinto e atualizado para as principais questões literárias, históricas, culturais e arqueológicas no coração dos estudos homéricos. O segundo é mostrar, através de exemplos concretos, como os leitores de Homero juntam-se a uma comunidade vasta e diversa de outros leitores e, na verdade, não leitores (como Petrarca).

Em parceria com a Editora Mnēma, o Estado da Arte traz “Procurando Homero”, um trecho da obra sobre o poeta controverso até no nome.

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(Reprodução)

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Procurando Homero

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As primeiras fontes remanescentes que mencionam Homero pelo nome datam do século VI a.C.: a partir delas podemos determinar que os gregos o consideravam um poeta excepcional e antigo — mas que não sabiam nada ao certo sobre ele. Até o nome “Homero” era controverso: a maioria dos autores parece simplesmente usá-lo, mas alguns insistiam que era só um apelido que significava “cego”, ou “refém”, e se referia a um episódio traumático da vida do poeta. (Os possíveis significados do nome Homero ainda geram discussão: não é um nome pessoal grego padrão, mas também não é obviamente inventado). O local de nascimento do poeta foi outro objeto de especulação na Antiguidade. As tradições mais antigas mencionavam lugares diferentes da Jônia — quer dizer, ocidente da Turquia e ilhas próximas — alegando que Homero era originário de Quios, Esmirna ou a eólia Cime. Alguns relatos também mencionam Atenas, Argos, Rodes e Salamina. Era sempre possível adicionar algo a esses sete locais tradicionais de nascimento de Homero: numa disputa sobre quem sabia mais, alguns eruditos gregos alegaram até que Homero era egípcio, ou um romano dos primórdios, sob o argumento de que as práticas heroicas que ele descrevia pareciam as de povos estrangeiros. Luciano, escrevendo no século II d.C., escarneceu dessa disputa, dizendo que ele próprio tinha viajado de verdade para a Ilha dos Bem-aventurados, conhecido Homero em pessoa, e determinado de uma vez por todas que o poeta era originário da Babilônia.

Assim como não havia acordo sobre a vida de Homero, havia também dúvidas sobre quais poemas, exatamente, ele tinha composto. A autenticidade da Ilíada nunca foi questionada, mas a da Odisseia às vezes foi, e uma série de outros poemas épicos — que hoje sobrevivem apenas em fragmentos e sinopses da trama — foram algumas vezes atribuídos a ele, assim como vários Hinos Homéricos aos deuses. Em geral, parece que as definições da oeuvre de Homero tornaram-se cada vez mais restritas com o passar do tempo. No século VI e no início do século V a.C., os autores gregos tratavam Homero como autor de sagas épicas inteiras, em vez de apenas dois poemas específicos. Por exemplo, quando o dramaturgo Ésquilo (c. 525-456 a.C.) alegou que suas tragédias eram “fatias do banquete de Homero”, ele devia ter em mente todo um ciclo de poemas relativos à Guerra de Troia, assim como um outro ciclo que tratava de Édipo, seus filhos, e a guerra que travaram por Tebas.

O historiador Heródoto (c. 484 -25 a.C.) atribuiu igualmente a Homero vários poemas sobre as guerras de Troia e de Tebas, mas começou a manifestar dúvida sobre a autenticidade de alguns: ele observou, por exemplo, uma contradição entre a Ilíada e as Cíprias (poema do ciclo sobre os estágios iniciais da Guerra de Troia) e sugeriu que, das duas, só a Ilíada era verdadeiramente homérica. À altura do século IV a.C., era aceito de maneira geral que Homero era o autor só da Ilíada e da Odisseia: Platão, por exemplo, tirou exclusivamente desses dois poemas quando citou o que “Homero” havia dito. Aristóteles, uma geração mais tarde, diferenciou esses dois poemas dos épicos do ciclo por razões estéticas: observou que a Ilíada e a Odisseia foram compostas de forma muito mais coesa do que outros poemas épicos anteriores, e que Homero “ou por técnica, ou por genialidade natural” fazia seus poemas girar em torno de uma única ação, em vez de apresentar uma variedade de episódios frouxamente conectados, como faziam os outros épicos.

Em suma, o conhecimento sobre o que Homero compôs não era simplesmente um fato herdado, mas tema de debate — mesmo na Antiguidade. Conforme as visões sobre poesia foram mudando, também as definições de “Homero” mudaram. O dramaturgo Ésquilo se importava de fato com teatro: via Homero como uma vasta tradição épica, da qual muitas peças poderiam ser extraídas. O historiador Heródoto estava preocupado com precisão factual: comparou diferentes poemas que em geral pensava-se serem homéricos, descobriu que as Cíprias contradizia a Ilíada, e passou a questionar sua autenticidade. O filósofo Aristóteles teorizou sobre enredo, técnica e talento: a Ilíada e a Odisseia eram poemas monumentais organizados em torno de uma estrutura coesa e meticulosamente concebida, observou, e reiterou serem obra de um poeta excepcional.

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Figura 1. Cópia romana de um retrato helenístico de Homero (c.150 a.C.). Vários outros retratos antigos sobrevivem, atestando a popularidade de Homero como tema de representação visual.

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Ainda assim, mesmo depois de Aristóteles se pronunciar sobre Homero, restaram questões sobre o que exatamente ele havia composto. Nos séculos III e II a.C., eruditos da biblioteca de Alexandria aplicaram critérios ainda mais restritos a fim de estabelecer o que era verdadeiramente homérico. Analisaram em detalhe a dicção e a gramática da Ilíada e da Odisseia, e puseram um símbolo específico — um traço longo chamado obelo — ao lado de versos ou passagens de cuja autenticidade duvidavam. Também discutiram extensamente sobre o que Homero teria ou não composto, especulando sobre o seu “caráter” (ēthos) e “persona” (prosōpon). Artistas em atividade nesse período também estavam interessados em caráter, e tentaram retratar com realismo naturalista o rosto de Homero, com base no que se dizia sobre ele (ver Figura 1). Seus esforços não revelaram o verdadeiro autor da Ilíada e da Odisseia, é claro, mas atestam um interesse contínuo na aparência e na identidade dele — interesse que ainda está em evidência hoje (ver Figura 2). Como observou Plínio em sua História Natural, “o desejo gera a imagem de um rosto, mesmo que não tenha sido transmitida, como é o caso com Homero”.

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Figura 2. “Pintura fotograficamente realista de Homero” (2013). Esta obra, do artista sul-coreano C. J. Joongwon, viralizou na Internet, em parte porque alimenta a especulação sobre o que poderia significar alegar “realismo” no caso de Homero.

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Dado que os gregos antigos não sabiam nada ao certo sobre Homero, é tentador descartar totalmente as suas opiniões e começar do zero com uma análise dos poemas atribuídos a ele e os contextos de sua recepção. De fato, no entanto, seria impossível recomeçar do zero. Herdamos dos gregos não apenas o nome de Homero — e vários retratos e lendas sobre ele — mas também o hábito de discutir a Ilíada, a Odisseia, e, na verdade, os ciclos épicos, em termos de seu(s) autor(es) presumido(s). Poemas épicos que foram transmitidos anonimamente não têm a mesma história de recepção ou interpretação.

Depois que Petrarca abordou Homero, outros estudiosos foram aprender grego, produzir traduções latinas, e interpretar os épicos. Acharam os poemas homéricos surpreendentes — especialmente em relação à fama e reputação de seu autor. O filósofo Giambattista Vico (1668-1744) foi o primeiro a argumentar que os épicos homéricos não poderiam ser criação de um grande poeta, mas derivavam da cultura coletiva, popular, dos gregos antigos. Ressaltava que eles eram muito “vis, rudes, cruéis, orgulhosos… insensatos, frívolos e levianos” para ser produto de um grande escritor, e acrescentou que as inconsistências de estilo e detalhe factual apontavam autoria coletiva.

Algumas décadas mais tarde, o erudito alemão Friedrich August Wolf (1759-1824) formulou rigorosamente a Questão Homérica com base nos escólios encontrados em um importante manuscrito bizantino, o Venetus A, então recentemente publicado. Ele concluiu que a épica homérica era produto de edição e revisão muito antigas baseadas em composições orais primitivas. Os Prolegomena ad Homerum (1795) de Wolf privilegiavam a história do texto em vez da identificação de um poeta original: Wolf admirava o trabalho dos estudiosos alexandrinos, tal como ficou preservado nos escólios, e achava que os filólogos modernos poderiam se sair ainda melhor. Seus Prolegomena definiam os estudos clássicos como uma disciplina moderna, e isso é compreensível, visto quão veementemente ele defendia a possibilidade de progresso filológico. Ainda assim, mesmo Wolf não conseguiu escapar dos termos antigos do debate sobre Homero. Assim satirizou Goethe o trabalho dele, em um dístico mordaz:

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Der Wolfische Homer

Sieben Städte zankten sich drum, ihn geboren zu haben;

nun da der Wolf ihn zerriβ, nehme sich jede ihr Stück.

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O Homero de Wolf

Sete cidades discutiam, alegando havê-lo dado à luz;

agora que Wolf o destroçou, que cada uma tome a sua fatia.

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Independente do trocadilho com o nome de Wolf  e a irreverência geral, Goethe lança dúvida sobre o feito de Wolf insinuando que sempre houve discussões sobre a identidade de Homero, e que uma pluralidade de autores sempre ameaçou emergir delas. Sendo ele mesmo poeta, Goethe defendia um enfoque na poesia homérica, em vez das controvérsias acadêmicas em torno dela — embora, na verdade, as duas não pudessem ser mantidas separadas. Como observou Nietzsche em sua palestra inaugural na Universidade de Basel, em 1869, “Homero como o poeta da Ilíada e da Odisseia não é um fato transmitido, histórico — mas, antes, um julgamento estético”.

Os Prolegomena de Wolf inspiraram o trabalho de estudiosos posteriores chamados Analistas, que procuraram atribuir diferentes partes dos poemas homéricos a diferentes autores. Unitaristas reagiram reiterando a integridade artística dos poemas: tinham de ser obra de um poeta, argumentaram, mesmo que pouco se pudesse saber sobre ele, já que havia uma unidade clara de composição e intenção. De modos e roupagens diferentes, discussões semelhantes perduram. Até hoje, alguns classicistas veem a Ilíada e a Odisseia como obra de um só poeta excepcional, ou talvez dois, enquanto outros postulam um processo prolongado de composição e recomposição por recitação. Precisamente porque não há uma concordância geral sobre a Questão Homérica, os capítulos 2 e 3 apresentam as poucas provas que existem sobre a criação dos poemas. O capítulo 4 discute a voz do poeta como ela emerge dos poemas atribuídos a ele. Os capítulos 5 a 7 apresentam a Ilíada, enquanto os capítulos 8 a 10 são dedicados à Odisseia. No geral, a interpretação oferecida neste livro sugere que Nietzsche estava certo: discussões sobre a composição da Ilíada e da Odisseia estão entrelaçadas com julgamentos sobre a sua beleza.

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Lawrence Alma-Tadema, ‘A Reading from Homer’, 1885

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Título original: Homer

©️ Barbara Graziosi, 2016

1ª edição em inglês, Oxford University Press, 2016.

1ª edição brasileira, Editora Mnēma, 2021.

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Graziozi, Barbara, Homero; traduzido por Marcelo Musa Cavallari e Maria Fernanda Lapa Cavallari. Araçoiaba da Serra, SP, Editora Mnēma, 2021.

ISBN: 978-65-991951-4-3

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Todos os direitos desta edição reservados à

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