O Homem e a Natureza em ‘A Infância de Ivan’

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Este ensaio faz parte do Especial Andrei Tarkovsky, que terá um texto dedicado a cada um dos filmes do diretor russo.

Confira a primeira parte.

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Tarkovsky

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O Homem e a Natureza em A Infância de Ivan

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por Miguel Forlin

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Na primeira imagem de A Infância de Ivan, vemos o jovem protagonista (Nikolay Burlyaev) escondido atrás de teias de aranha. Logo depois, sem que haja cortes, enquanto a câmera se movimenta verticalmente, o pequeno corpo do protagonista fica mais distante dos nossos olhos e uma árvore, cujo tronco é acompanhado de perto pelas lentes de Andrei Tarkovsky, revela progressivamente o seu imenso tamanho e imponência. Mais à frente, o local claro e aberto em que essas cenas se desenrolam é abruptamente substituído por um espaço fechado e escuro, acompanhado por barulhos de bombardeio. Nos instantes finais, um movimento vertical, similar ao mencionado acima, parte do buraco que une o chão aos terrores de um calabouço e termina diante do tenebroso desenho da suástica, indicando que as atrocidades perpetradas no subterrâneo ocorriam debaixo de um símbolo que, para os seus insanos seguidores, ilustrava toda a honra e altivez que eles equivocadamente imaginavam ter.

Ora pela disposição dos personagens e objetos no enquadramento (que podem mudar de acordo com os deslocamentos da câmera), ora pelas transições da montagem, em A Infância de Ivan, Tarkovsky está registrando a mesma coisa: a realidade contraditória de uma guerra que obriga crianças a se tornarem homens, retirando-as violentamente dos seus ambientes naturais e jogando-as num universo do qual nada sabem, embora nele tenham de agir para manter a própria sobrevivência. É a representação do absurdo, do contraste e da contradição. É a jovialidade inocente dos primeiros anos encoberta pelo tecer das aranhas, símbolo do tempo e do predatismo, das armadilhas que aguardam o protagonista; o idílio da infância interrompido pela sede destrutiva dos homens; a harmonia paradisíaca entre uma criança e o mundo posteriormente corrompida por um Estado que levou a nossa condição ao limite.

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(Reprodução)

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Nos seus filmes, entre muitos outros temas, Tarkovsky retratou a relação conflituosa dos seres humanos com a natureza. Os motivos que agravaram esse relacionamento são misteriosos: talvez tenham a ver com o desenfreado avanço tecnológico, ainda não plenamente absorvido (os carros se comportando de maneira caótica em Solaris, momentos após o personagem principal abandonar a região harmoniosa onde vivia, ou, no mesmo filme, a viagem espacial que, levando os cientistas a lugares inexplorados, confronta-os com problemas mal resolvidos na Terra); talvez estejam relacionados à cientifização do pensamento e às suas evidentes consequências manipulativas. Seja qual for a causa, o resultado aponta para a ação do homem na natureza.

Em A Infância de Ivan, há cenas em que a destruição física, moral e espiritual da guerra parece corromper a própria organização das coisas e paisagens: a sujeira dos lagos e rios nos quais o protagonista se arrasta; árvores tombando em decorrência de explosões; a cicatriz na face de Leonid (Valentin Zubkov), ressaltando a diferença de idade para Ivan e Galtsev (Evgeniy Zharikov), dois jovens que tiveram a juventude negada para participar de batalhas que não entendem, cujo preço é a supressão parcial do tempo, elipses brutais que pulam etapas cruciais de qualquer desenvolvimento (como a que acontece perto do final, em que o espectador se vê já no fim da guerra e a cicatriz no rosto de Galtsev introduz o seu amadurecimento forçado, num recorte temporal que não nos é mostrado); na cena em que Ivan desce no poço para pegar água, por exemplo, o tiro mortal de um oficial encerra não só a sua atividade como a vida de sua mãe.

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(Reprodução)

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Em mais de uma situação, ouvimos goteiras, e o que são goteiras senão a diluição do fluxo natural da chuva por construções humanas, como um telhado alvejado por balas e bombas? E o que são goteiras senão indicativos claros de um mundo que se sobrepõe aos nossos principais esforços, que exerce a sua autoridade (como a árvore que aumenta ao passo que a figura humana diminui, no início)? No entanto, gotas d´água caindo individualmente de uma folha seguem um rumo normal. E não é à toa que, em vários dos seus longas, Tarkovsky usa um ou mais dos quatro elementos clássicos como a catarse final dos seus personagens, a purificação que os liberta de uma situação aprisionadora.

Água, terra, fogo e ar são aspectos essenciais da criação cinematográfica do diretor. Em Stalker, depois que a bomba é desarmada, os três personagens principais se sentam ao chão e são acompanhados por uma chuva que começa e para dentro da lógica interna de um único plano. Em O Sacrifício, a ventania do início, que parece anunciar o que está prestes a acontecer, se converte no sonho apocalíptico que leva o protagonista a sair da zona de conforto e implodir o seu universo particular, fazendo com que, através da loucura ― que rompe com aquela normalidade doentia ―, ele se liberte de todas as amarras num incêndio final catártico, reconquistando, assim, uma possível ordem natural (a imagem do filho deitado ao pé da árvore, restituído da capacidade de falar e fazendo a pergunta primordial). Em Andrei Rublev, para desenvolver plenamente o seu talento artístico e criar, o pintor de ícones precisa sair do monastério e conhecer a Criação, conhecer o mundo e os homens. É somente assim que ele se torna o artista que almejava ser.

Em A Infância de Ivan, essa associação harmônica entre os seres humanos e a natureza, não coincidentemente, reforça os momentos mais otimistas. Quando Leonid e Masha (Valentina Malyavina) estão flertando, a movimentação dos dois é quase uma dança entre a imensidão da floresta; quando os dois se beijam, a câmera desce e se mistura à terra, enquadrando-os de baixo para cima; ao se ver apaixonada, Masha delira de emoção, e, adotando a sua perspectiva, Tarkovsky vai ao encontro das árvores. Na majestosa sequência final, Ivan, numa de suas visões, corre livremente sobre as águas, e, novamente adotando a visão de um dos personagens, o diretor funde a sua câmera à madeira de um tronco.

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(Reprodução)

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Humanidade e natureza podem recuperar, dessa maneira, aquilo que perderam em seus respectivos desvios. O mundo e os homens em sintonia, permitindo um novo começo. Ressurge aquilo que desapareceu, num ciclo aparentemente infindável. Entretanto, de todas as contradições que caracterizam A Infância de Ivan, uma permanece: dada a propensão natural dos seres humanos à guerra e autodestruição, talvez também seja na sua essência que esses ímpetos assassinos e suicidas se encontrem. Estaríamos, portanto, condenados a destruir e a renascer, mas com o perigo de desenvolver, cada vez mais, armas que não dizimarão apenas regiões, mas o mundo em sua totalidade. Se, em A Infância de Ivan (que Tarkovsky considerava ser o seu primeiro filme), estão representados os perigos da ocupação nazista em alguns países europeus, em O Sacrifício, último trabalho do cineasta, é uma guerra nuclear que assombra o protagonista.

E o temor de que não haja nem homens nem a natureza para recomeçar de novo.

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Miguel Forlin

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área.