Notre Dame: sob as cinzas da memória, ou como ardem as Igrejas

por Laura Ferrazza

Nem bem esfriaram as brasas do Museu Nacional brasileiro e novas chamas filistinas fizeram arder um passado ainda mais distante, a catedral de Notre Dame de Paris. De um lado e de outro do oceano, nos trópicos ou nos desertos, parecemos varrer os cacos de nosso passado material. O novo milênio é marcado pelo efêmero, pela realidade virtual e pelas redes sociais, e parece desdenhar do passado concreto que se ergue, real, diante dos nossos olhos. É chegado o momento de refletir: o que pode explicar que, na era da tecnologia, patrimônios de valor inestimável se percam por descuido, por falta de verba, enfim, por descaso? As prioridades atuais parecem ser outras e, ao que parece, somos uma geração fadada a chorar sobre as cinzas da memória.

A destruição do passado material, representado por edificações e obras de arte que lhe servem como adorno, não é um fenômeno tão recente. As motivações são as mais variadas, mas todas elas igualmente lamentáveis. Uma das causas da destruição do patrimônio histórico são as guerras. Durante conflitos, as perdas materiais da memória podem ocorrer de duas formas: ou como dano colateral à violência armada; ou como dano calculado, quando se trata de ferir o inimigo no que lhe é mais caro, como, por exemplo, a memória nacional ou os símbolos religiosos.

Outro elemento destruidor é a expansão imobiliária. Toda vez que a urbanidade cresce e se desenvolve, o passado acaba parecendo incômodo e inadequado ao progresso; foi no século XIX, aliás, que a ideia de progresso tornou-se central, o que aumentou de forma até então nunca vista a sanha de derrubar o velho para erguer o novo. Foi nesse momento que se intensificou o processo da escolha do que devia perecer e o que devia permanecer; na cidade de Paris, essas transformações tiveram um grande impacto. A destruição sistemática de um grande número de prédios medievais levou um grupo de intelectuais a encampar um movimento de revalorização da arte do medievo, que a partir do Renascimento foi considerada como algo “grotesco”.  Desse esforço, por sinal, nasceu a obra “Notre-Dame de Paris” (1831), de Vitor Hugo, cujo título em português faz referência ao hoje famosíssimo personagem do corcunda. Na década de 1840 o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc (que viria a se tornar referência em restauração de prédios) venceu um concurso para o restauro da catedral de Notre-Dame. Ao executar tal tarefa, iniciada em 1845, ele demonstrou profundo respeito pela estética medieval e, apesar de ter usado materiais e técnicas de seu tempo, criou um teto e uma agulha que se combinavam de maneira formidável com o restante da construção. Tanto é verdade que, antes do incêndio que consumiu sua obra, poucos atentavam para o fato de que aquela parte específica não era original. Uma recapitulação se faz necessária, uma vez que, após o choque inicial da destruição de parte da Igreja, as atenções se voltam agora aos projetos de reconstrução.

A construção da catedral de Notre-Dame começou no século XII e se estendeu por quase cem anos, marcando o período conhecido como a “era das grandes catedrais”. Foi na França, aliás, que surgiu a estética que ficou conhecida como “estilo gótico” nas artes. O estopim dessa renovação artística iniciou justamente pela busca de inovação técnica na construção de edifícios religiosos. Os construtores daquele tempo perceberam que podiam sustentar a estrutura do prédio dispensando o uso de paredes maciças. Utilizaram pilastras internas compostas por feixes de pedra que se estendiam até o teto, onde se cruzavam e então preenchiam o vão entre os arcos; as paredes entre as pilastras eram vazadas, de maneira que os edifícios ganhavam amplitude e leveza. Essas inovações técnicas permitiram que se construíssem janelas maiores nas paredes externas, o que impulsionou o aprimoramento da arte dos vitrais. Com isso, as catedrais ganharam uma aparência mais sofisticada e ornamentada. A aparência geral da edificação tornou-se mais leve em relação aos estilos anteriores. Essa leveza era conseguida usando pedras e cálculos. A maior revolução desse estilo arquitetônico foi a criação do arco ogival, que permitia a variação na altura do teto, dando-lhe uma aparência mais pontiaguda. A catedral de Notre-Dame é um ótimo exemplo da aplicação de todas as principais características do gótico. A planta do edifício é projetada em forma de cruz e, para dar sustentação aos traços delgados da nave, foram construídas estruturas externas chamadas de arcobotantes, grandes sustentáculos em pedra que parecem leves por seu formato e sua disposição.

As grandes dimensões tinham como função original fazer o homem se sentir pequeno diante da grandeza de Deus. Mesmo que possamos questionar o funcionamento da instituição e suas práticas, não devemos fazer a edificação pagar pelos erros de sua época. A engenhosidade e o gosto estético apresentados pela catedral são feitos humanos, e cada uma dessas descobertas contribuiu para o desenvolvimento de técnicas posteriores. Um prédio dessa magnitude não é só o registro de uma fé, mas de uma sociedade, de uma cultura e de técnicas e materiais que se perderam no tempo e podem ser revisitados através dele.

É interessante notar que a arte gótica sofreu grande preconceito na história da arte, durante séculos – começando pelo momento em que ganhou seu nome. Foi no Renascimento que se cunhou a expressão “arte gótica”, de forma pejorativa, pois associava a arte dos séculos XII e XIII com a tribo bárbara dos godos, que invadiu o Império Romano por volta do século III. Ou seja: não foram os godos que criaram a arte gótica; mas se fez uma referência a eles para se desmerecer o estilo assim nomeado. O desdém se dava por várias razões: o Renascimento valorizava a arte greco-romana e acreditava que a arte medieval estivesse afastada desses ideais; além disso, aqueles que executavam essas construções, suas estátuas e seus vitrais, eram considerados artesãos a serviço da fé e não artistas criadores. A estética gótica só foi reabilitada no final do século XVIII e início do século XIX pelo movimento romântico.

A partir da construção de uma noção de história e de patrimônio, e graças à associação entre o passado medieval e as identidades nacionais em construção, o século XIX iniciou um movimento de preservação. Como vimos, as motivações e escolhas do que foi preservado podem sim ser questionadas, mas a partir desse questionamento não devemos desvalorizar os prédios que permaneceram. Alguns teóricos da memória do século XX levantaram a questão de que o medo de perder referências acelerou a construção de espaços de preservação, com a institucionalização de políticas de preservação memorial. Infelizmente, no século atual, parecemos substituir o anseio memorativo por um desinteresse pela preservação; para um grande número de pessoas, parece suficiente ter o registro virtual da existência desse passado, de forma que sua materialidade torna-se dispensável.

Julgar os monumentos a partir do que houve de pior na época em foram construídos é buscar neles respostas impossíveis de se encontrar; trata-se de uma espécie de ardil em que a própria existência de determinado patrimônio será inevitavelmente condenada. Pensar nos prédios ou monumentos apenas como símbolos de uma religião, de um governo, de uma forma de pensar é descartar sua forma estética, sua aparência e, também, sua contribuição enquanto técnica. De toda forma, apagar o passado através da derrubada ou do abandono de edificações não ajuda a criar uma nova consciência; o esquecimento nada resolve, e os problemas com que antes nos deparávamos continuam intactos após a desaparição do patrimônio.

Também precisamos ficar atentos às tentativas de reconstrução, pois há intervenções que aniquilam. O próprio Viollet-le-Duc afirmava que uma reconstrução literal era impossível. Ainda assim, todas as suas ações calcaram-se em profundo conhecimento da arte medieval, no estudo exaustivo da edificação a ser restaurada e numa concepção estética na qual a beleza era um valor central.  Se, agora, decidir-se aplicar certos conceitos da arte e da arquitetura contemporâneas, em que o utilitarismo se sobrepõe ao belo, corre-se o risco de descaracterizar para a posteridade a antiga catedral. Aqui nos deparamos com a difícil tarefa de enfrentar certa soberba moderna: é duro aceitar que nem sempre o mais recente é também melhor. Para se afirmar ante todos os séculos, o homem atual tende a desvalorizar as formas, as técnicas e os materiais do passado; desvalorização que Viollet-le-Duc, ainda que sabidamente megalomaníaco, jamais pensaria em cometer. Toda época quer deixar sua marca; mas qual será o custo de deixarmos a nossa?

Laura Ferrazza

Laura Ferrazza é Doutora em História da Arte e História da Moda (PUCRS/Sorbonne). Professora/pesquisadora autônoma, ministra cursos livres.