A noite do inferno de Arthur Rimbaud

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Em parceria com a todavia, o Estado da Arte publica hoje, no original e na tradução de Júlio Castañon Guimarães, ‘Nuit de l’enfer’ — a noite do inferno de Arthur Rimbaud, poema em prosa que faz parte da coletânea ‘Um tempo no inferno & Iluminações’, recém-lançada no Brasil pela editora.

C’est le feu qui se relève avec son damné.

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(Reprodução)

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Rimbaud

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Nuit de l’enfer

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J’ai avalé une fameuse gorgée de poison. — Trois fois béni soit le conseil qui m’est arrivé! — Les entrailles me brûlent. La vio- lence du venin tord mes membres, me rend difforme, me terrasse. Je meurs de soif, j’étouffe, je ne puis crier. C’est l’enfer, l’éternelle peine! Voyez comme le feu se relève! Je brûle comme il faut. Va, démon!

J’avais entrevu la conversion au bien et au bonheur, le salut. Puis-je décrire la vision, l’air de l’enfer ne souffre pas les hymnes! C’était des millions de créatures charmantes, un suave concert spirituel, la force et la paix, les nobles ambitions, que sais-je?

Les nobles ambitions!

Et c’est encore la vie! — Si la damnation est éternelle! Un homme qui veut se mutiler est bien damné, n’est-ce pas? Je me crois en enfer, donc j’y suis. C’est l’exécution du catéchisme. Je suis esclave de mon baptême. Parents, vous avez fait mon malheur et vous avez fait le vôtre. Pauvre innocent! — L’enfer ne peut attaquer les païens. C’est la vie encore! Plus tard, les délices de la damnation seront plus profondes. Un crime, vite, que je tombe au néant, de par la loi humaine.

Tais-toi, mais tais-toi!… C’est la honte, le reproche, ici: Satan qui dit que le feu est ignoble, que ma colère est affreusement sotte. — Assez!… Des erreurs qu’on me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles. — Et dire que je tiens la vérité, que je vois la justice: j’ai un jugement sain et arrêté, je suis prêt pour la perfection… Orgueil. — La peau de ma tête se dessèche. Pitié! Seigneur, j’ai peur. J’ai soif, si soif! Ah! l’enfance, l’herbe, la pluie, le lac sur les pierres, le clair de lune quand le clocher sonnait douze… le diable est au clocher, à cette heure. Marie! Sainte-Vierge!… — Horreur de ma bêtise.

Là-bas, ne sont-ce pas des âmes honnêtes, qui me veulent du bien… Venez… J’ai un oreiller sur la bouche, elles ne m’entendent pas, ce sont des fantômes. Puis, jamais personne ne pense à autrui. Qu’on n’approche pas. Je sens le roussi, c’est certain.

Les hallucinations sont innombrables. C’est bien ce que j’ai toujours eu: plus de foi en l’histoire, l’oubli des principes. Je m’en tairai: poètes et visionnaires seraient jaloux. Je suis mille fois le plus riche, soyons avare comme la mer.

Ah ça! l’horloge de la vie s’est arrêtée tout à l’heure. Je ne suis plus au monde. — La théologie est sérieuse, l’enfer est certainement en bas — et le ciel en haut. — Extase, cauchemar, sommeil dans un nid de flammes.

Que de malices dans l’attention dans la campagne… Satan, Ferdinand, court avec les graines sauvages… Jésus marche sur les ronces purpurines, sans les courber… Jésus marchait sur les eaux irritées. La lanterne nous le montra debout, blanc et des tresses brunes, au flanc d’une vague d’émeraude…

Je vais dévoiler tous les mystères: mystères religieux ou naturels, mort, naissance, avenir, passé, cosmogonie, néant. Je suis maître en fantasmagories.

Écoutez!….

J’ai tous les talents! — Il n’y a personne ici et il y a quelqu’un: je ne voudrais pas répandre mon trésor. — Veut-on des chants nègres, des danses de houris? Veut-on que je disparaisse, que je plonge à la recherche de l’anneau? Veut-on? Je ferai de l’or, des remèdes.

Fiez-vous donc à moi, la foi soulage, guide, guérit. Tous, venez, — même les petits enfants, — que je vous console, qu’on répande pour vous son cœur, — le cœur merveilleux! — Pauvres hommes, travailleurs! Je ne demande pas de prières; avec votre confiance seulement, je serai heureux.

— Et pensons à moi. Ceci me fait peu regretter le monde. J’ai de la chance de ne pas souffrir plus. Ma vie ne fut que folies douces, c’est regrettable.

Bah! faisons toutes les grimaces imaginables.

Décidément, nous sommes hors du monde. Plus aucun sou. Mon tact a disparu. Ah! mon château, ma Saxe, mon bois de saules. Les soirs, les matins, les nuits, les jours… Suis-je las!

Je devrais avoir mon enfer pour la colère, mon enfer pour l’orgueil, — et l’enfer de la caresse; un concert d’enfers.

Je meurs de lassitude. C’est le tombeau, je m’en vais aux vers, horreur de l’horreur! Satan, farceur, tu veux me dissoudre, avec tes charmes. Je réclame. Je réclame! un coup de fourche, une goutte de feu.

Ah! remonter à la vie! Jeter les yeux sur nos difformités. Et ce poison, ce baiser mille fois maudit! Ma faiblesse, la cruauté du monde! Mon Dieu, pitié, cachez-moi, je me tiens trop mal! — Je suis caché et je ne le suis pas.

C’est le feu qui se relève avec son damné.

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Noite do inferno

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Bebi um bom gole de veneno. — Três vezes abençoado seja o conselho que me chegou! — As entranhas ardem-me. A violência do veneno contorce meus membros, faz-me disforme, abate-me. Morro de sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam como o fogo sobe! Ardo como tem de ser. Vá, demônio!

Eu tinha entrevisto a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Posso descrever a visão, o ar do inferno não suporta os hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que mais?

As nobres ambições!

E isso ainda é a vida! — Se a danação é eterna! Um homem que quer mutilar-se está condenado, não é? Considero-me no inferno, portanto estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo de meu batismo. Pais, vocês fizeram minha infelicidade e fizeram a de vocês. Pobre inocente! — O inferno não pode investir contra os pagãos. — É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação serão mais profundas. Um crime, rápido, que eu caia no nada, pela lei humana.

Cale-se, cale-se!… É a vergonha, a reprovação, aqui: Satã que diz que o fogo é ignóbil, que minha cólera é terrivelmente tola. — Chega!… Erros que me são soprados, magias, perfumes falsos, músicas pueris. — E dizer que detenho a verdade, que vejo a justiça: tenho um julgamento são e firme, estou pronto para a perfeição… Orgulho. — A pele de minha cabeça está se ressecando. Piedade! Senhor, tenho medo. Tenho sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, a lagoa sobre as pedras, o luar quando o campanário tocava doze… o diabo, nessa hora, está no campanário. Maria! Virgem Santa!… — Horror de minha tolice.

Ali, não são almas honradas, que me querem bem…? Venham… Tenho um travesseiro sobre a boca, elas não me ouvem, são fantasmas. Depois, nunca ninguém pensa no outro. Não se aproximem. Tenho cheiro de queimado, com certeza.

As alucinações são inumeráveis. É isso mesmo que sempre tive: nenhuma fé mais na história, o esquecimento dos princípios. Vou calar-me a esse respeito: poetas e visionários seriam invejosos. Sou mil vezes o mais rico, sejamos avaro como o mar.

Agora isto! O relógio da vida parou há pouco. Não estou mais no mundo. — A teologia é séria, o inferno está certamente embaixo — e o céu no alto. — Êxtase, pesadelo, sono em um ninho de chamas.

Quantas artimanhas da atenção no campo… Satã, Ferdinand, corre com as sementes selvagens… Jesus anda sobre os espinheiros purpúreos, sem os curvar… Jesus andava sobre as águas irritadas. A lanterna mostrou-o para nós de pé, branco e com tranças castanhas, ao lado de uma onda de esmeralda…

Vou desvelar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, nada. Sou mestre em fantasmagorias.

Escutem!…

Tenho todos os talentos! — Não há ninguém aqui e há alguém: eu não queria dispersar meu tesouro. Querem cantos negros, danças de huris? Querem que eu desapareça, que eu mergulhe em busca do anel? Querem? Farei ouro, remédios.

Fiem-se então em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham, — mesmo as crianças pequenas —, para que eu os console, para que se derrame para vocês o coração, — o coração maravilhoso! — Pobres homens, trabalhadores! Não peço orações; com a confiança de vocês apenas, serei feliz.

— E pensemos em mim. Isso me faz sentir pouca falta do mundo. Tenho sorte de não sofrer mais. Minha vida não foi mais que suaves loucuras, é lamentável.

Bah! façamos todas as caretas imagináveis.

Decididamente, estamos fora do mundo. Não há mais som. Meu tato desapareceu. Ah! meu castelo, minha Saxônia, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias… Estou cansado!

Eu deveria ter meu inferno para a cólera, meu inferno para o orgulho — e o inferno do afago; um concerto de infernos.

Morro de cansaço. É o túmulo, vou-me embora para os vermes, horror do horror! Satã, farsante, você quer dissolver-me com seus encantos. Exijo. Exijo! um golpe com o tridente, uma gota de fogo.

Ah! voltar à vida! Lançar os olhos sobre nossas deformidades. E esse veneno, esse beijo mil vezes maldito! Minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconda-me, não consigo controlar-me! — Estou e não estou escondido.

É o fogo que se reaviva com seu condenado.

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Arthur Rimbaud na Etiópia em 1883

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