Poesia do pensamento: a retórica do ensaio em Octavio Paz

por Eduardo Cesar Maia

No mês seguinte à morte de Octavio Paz, há exatos 20 anos, seu amigo Carlos Fuentes prestou-lhe uma homenagem em forma de discurso na Feira de Livro de Buenos Aires. Entre outras coisas de caráter mais pessoal e emotivo, Fuentes sugeria que “o grande acerto de Paz foi dotar de pensamento a poesia e de poesia o pensamento. Contagiou sua prosa com relâmpagos metafóricos e sua poesia com lucidez discursiva. Talvez esta tenha sido sua singularidade, sendo, como todo criador, herdeiro de uma tradição”. Em seguida, o autor de Gringo viejo passava a enumerar exclusivamente poetas que teriam influenciado a escrita e o pensamento de Paz. No entanto, curiosamente, nada diz a respeito da outra parte da tradição que mencionou, a que teria contaminado a poesia do amigo com uma “lucidez discursiva”. Assim, aproveito-me da “lacuna” deixada para tentar ensaiar eu mesmo uma possível resposta – e o verbo “ensaiar” vem bem a calhar aqui: acredito que a outra filiação intelectual de Paz, patente em sua abundante e valiosa obra ensaística, remete à determinada vertente de uma tradição filosófico-literária de orientação humanista, por certo muito bem representada em língua castelhana por pensadores como Baltasar Gracián, Luis Vives, Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, María Zambrano e, obviamente, também por um conterrâneo, o grande crítico e polímata Alfonso Reyes.

O autor de El laberinto de la soledad, vencedor do Prêmio Cervantes em 1981 e do Prêmio Nobel de Literatura em 1990, compreendia a atividade intelectual como uma espécie de drama da consciência, e encontrou no ensaísmo a forma mais adequada e pessoal de dar expressão às tensões entre o individual e o coletivo; os conflitos entre o escritor e a sociedade. Foi o próprio Octavio Paz quem atestou: “Tudo o que escrevo é autobiográfico” – e isso deve ser levado a sério por quem examina não somente a sua poesia, mas especialmente sua produção ensaística. O “eu” que se apresenta em cada ensaio não é um ente abstrato, como o cogito cartesiano, mas o indivíduo concreto, que pensa e sente o mundo, e se coloca a partir de sua intransferível singularidade, estreitando os laços entre o aprendizado conceitual e a própria vida.

Entre tantos temas explorados pelo escritor, o mais recorrente e importante foi, sem dúvida, a própria linguagem, investigada em toda sua complexidade: “a linguagem não é somente um fenômeno social, pois constitui, simultaneamente, o fundamento de toda sociedade e a expressão social mais perfeita do homem”. E essa complexidade se evidencia na constatação de que não somos somente seres criadores de símbolos: nós somos linguagem, pois é ela que nos constitui. Para Paz, a linguagem é um organismo vivo, e as palavras “são rebeldes à definição”; sua concepção de conhecimento resiste, pois, aos limites de uma visão exclusivamente racionalista e logicista, e tampouco se dobrava frente às pretensões cientificistas de diversas correntes teóricas hegemônicas em sua época. Não seria correto, contudo, classificá-lo como “irracionalista”: a crítica do ensaísta se dirige não à razão e à lógica, mas à mistificação delas, a partir da criação de uma ordem abstrata, fechada, sistemática e imutável como base essencial do universo. Distanciando-se de qualquer versão idealista de pensamento, Paz aceita que mesmo a nossa lógica mais “pura” é algo totalmente contingente, pois nasce, assim como a própria linguagem, de nossa interação cotidiana com o mundo. Entretanto, ainda que contingente e orgânica, a linguagem possui necessariamente uma estrutura lógica, sem a qual – reconhece o ensaísta – não poderia funcionar.

Em uma parte fundamental de El arco y la lira, escreve Paz: “As palavras se conduzem como seres caprichosos e autônomos. Sempre dizem ‘isto e o outro’ e, ao mesmo tempo, ‘aquilo e o de mais além’. O pensamento não se resigna; forçado a usá-las, uma e outra vez pretende reduzi-las a suas próprias leis; e uma e outra vez a linguagem se rebela e rompe os diques da sintaxe e do dicionário. Léxicos e gramáticas são obras condenadas a não serem terminadas nunca. O idioma está sempre em movimento, ainda que o homem, por ocupar o centro do redemoinho, poucas vezes se dê conta dessa incessante mudança”. É justamente a liberdade garantida pela retórica do ensaio que permite, àqueles que o cultivam, o uso de ferramentas poéticas como a metáfora e as analogias, além do discurso indireto, digressivo, subjetivo, circular… Um dos grandes valores dos ensaios do autor de Libertad bajo palabra reside em seu poder criativo e metafórico, na beleza sensual de suas imagens, em um tipo de rigor ao mesmo tempo intelectual e estético, que impressiona a inteligência e a sensibilidade do leitor. Em seus ensaios, portanto, literatura e filosofia não são adversárias, mas complementares: a autoconsciência linguística e a vontade de estilo se irmanam para dar conta de algo para o qual a argumentação filosófica tradicional, de viés racionalista, não está habilitada. O tipo de “verdade” procurada pelo ensaísta não tem a pretensão de ter uma validade coletiva, universal; contenta-se em testemunhar uma verdade existencial, retirada da vivência e experiência individual. Afinal, em última análise, são somente os indivíduos que concretamente existem, e não as categorias universais e as coletividades.

É tarefa estéril querer localizar o pensamento de Octavio Paz – principalmente aquele revelado em sua ensaística – dentro de uma teoria exclusiva ou de um único sistema filosófico, ainda que ele tenha sido influenciado por várias correntes teóricas e literárias de seu tempo. Sua obra reflete uma negação peremptória de esquemas, teorias e sistemas fechados de pensamento. E essa é outra evidência de sua filiação humanista: não encontramos nele o trabalho de um especialista, de alguém versado em uma determinada área do conhecimento. Em um mesmo texto seu, é comum a presença de vários temas entrelaçados, perspectivas diferentes em diálogo franco e mesmo contradições lógicas impensáveis dentro dos limites de um pensamento analítico. Em seus ensaios, não há a pretensão de se esgotar um tema ou de se estabelecer definições últimas: o importante é buscar – ensaiar– novos caminhos, novas formas de ver. Dizia Ortega y Gasset que o ensaio é “a ciência sem a prova explícita”; nesse gênero, não é necessário provar nenhum argumento de maneira definitiva, pois não se busca a certeza e nem a objetividade. A ânsia moderna, racionalista e cartesiana, por um saber apodítico (universal e necessário) é deixada de lado. O ensaísta se alimenta da constatação do caráter contingencial e provisório de nossa existência e de tudo aquilo que presumimos saber.

Numa referência a um de seus maiores mentores intelectuais, escreveu Octavio Paz: “Diz-se que Alfonso Reyes é um dos maiores prosadores da língua; é preciso acrescentar que essa prosa não seria a que é se não fosse a prosa de um poeta”. Tais palavras caberiam perfeitamente numa caracterização do próprio Paz, porque seus ensaios são também peças de um criador da linguagem, pensamento móvel de um poeta.

Eduardo Cesar Maia

Eduardo Cesar Maia é professor do curso de Comunicação Social (CAA) e do Programa de Pós-Graduação em Letras (Teoria da Literatura) da Universidade Federal de Pernambuco. A respeito ao crítico caruaruense, organizou as obras Álvaro Lins: sobre crítica e críticos (Cepe Editora, 2012) e Álvaro Lins: sete escritores do Nordeste (Cepe Editora, 2015). Ainda em 2020 lançará, pela Editora UFPE, o livro O homem contra as fórmulas: o personalismo crítico de Álvaro Lins, no qual ensaia uma interpretação particular do pensamento do crítico.