Sequestro de símbolos

Sequestro de símbolos: O que a bandeira de Israel em um ato antidemocrático nos diz sobre o bolsonarismo

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por Fábio Zuker Rafael Kruchin

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No primeiro domingo de maio (03/05), parte da população brasileira ficou chocada com a aparição do presidente da República em mais um ato antidemocrático. Gritos de ordem bradados pelos manifestantes e faixas clamavam pelo fechamento do congresso e do Supremo Tribunal Federal. O tribunal, guardião da Constituição Federal, poucos dias antes havia cancelado a nomeação do indicado da família Bolsonaro para direção da Polícia Federal. Um detalhe não passou despercebido nas mídias sociais: uma bandeira de Israel e outra dos Estados Unidos tremulavam em um mastro, à frente do presidente.

Longe de ser algo pontual, cenas como essa têm acontecido pelo menos desde a corrida eleitoral de 2018, senão mesmo quando se intensificaram os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff. Aliás, não apenas a bandeira de Israel, mas também a comunidade judaica vem sendo associada à nova extrema-direita que ganhou terreno na política brasileira. Em algum sentido, a identidade judaica foi politizada pelo imaginário social, e ser judeu tornou-se quase um sinônimo do radicalismo neoconservador.

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(Foto: Wagner Pires/Futura Press/Estadão Conteúdo)

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Como foi que a bandeira de Israel acabou por tornar-se símbolo do bolsonarismo? Como judeus, que no Brasil representam pouco mais de cem mil pessoas (segundo os dados do último censo do IBGE, de 2010), foram colocados como um dos grupos responsáveis pela eleição de Jair Bolsonaro?

Responder a essas questões de maneira certeira exigiria um amplo debate. Por isso, pretendemos aqui colocar apenas algumas torções e levantar reticências sobre a maneira como se dá esta associação direta entre judeus e o bolsonarismo.

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Bandeira

No âmbito religioso, o uso da bandeira de Israel e de símbolos judaicos por parte do governo apareceram como meio para satisfazer anseios de setores evangélicos que crescem aos milhões no Brasil, garantindo um eleitorado significativo sem o qual Bolsonaro não teria chegado ao executivo nacional.

Nas últimas décadas, foram os grupos pentecostais e neopentecostais que se aproximaram do Estado judeu e do judaísmo de maneira mais expressiva. Seguidores da doutrina dispensacionalista, entendem que o esperado retorno de Cristo só virá quando todos os judeus retornarem a Jerusalém e à toda Terra Santa. Assim, para eles, apoiar o controle judaico na Palestina histórica é garantir o cumprimento da profecia do retorno de Jesus, o que explica suas posições contrárias às reivindicações dos palestinos e favoráveis à transferência da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém.

Se em nível religioso existe uma associação entre o Estado de Israel e a Israel bíblica, no plano mundano, o país é visto como uma barreira contra ameaças locais e globais. Em escala transnacional, a visão é de que o país atua como bastião do Ocidente para conter as “barbáries” imputadas ao Oriente Médio e ao mundo islâmico. Representaria os valores bíblicos atribuídos a uma suposta civilização judaico-cristã e um Estado militarizado, capaz de lidar com seus inimigos. Além disso, a visão de Israel como “start up nation”, epicentro do desenvolvimento científico e tecnológico, se encaixa no ideário econômico neoliberal, atraindo mais figuras do campo conservador brasileiro. Por fim, não se deve menosprezar que Israel é um país governado à mão de ferro por Benjamin Netanyahu, habilidoso político, ávido por se manter no poder mesmo diante de situações eleitorais em que não consegue obter maioria. Netanyahu, acusado de envolvimento em inúmeros esquemas de corrupção, figura também como modelo a ser seguido no âmbito do bolsonarismo.

De maneira ilusória, Israel — e também os judeus, por extensão — acabam personificando interesses dos núcleos ideológico, econômico e militar do atual governo brasileiro.

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(Foto: REUTERS/Ammar Awad)

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 Punir para educar

Paralelamente às constantes referências a Israel — e inversamente ao que se poderia supor — há outro desconcertante referencial simbólico que circula, para estupor de muitos, pelo governo Bolsonaro. Abundam frases e imagens nazistas.

O vídeo no qual o secretário de cultura Roberto Alvim divulgou em meados de janeiro, emulando a estética e discurso de Joseph Goebbels, caiu como uma bomba. Pela pronta reação não só de judeus mas da sociedade civil como um todo, a permanência de Alvim tornou-se insustentável e sua demissão não demorou em ser anunciada pelo governo.

Mais recentemente, já em meio à situação de pandemia causada pelo novo coronavírus, o chanceler Ernesto Araújo envolveu-se em mais uma polêmica. Ele comparou as medidas de isolamento social, cientificamente comprovadas como a melhor forma de deter o avanço da doença, aos campos de concentração. Em seu blog Metapolítica 17 — Contra o Globalismo, Araújo escreveu, no último 22 de abril, um comentário ao recém-lançado livro do filósofo esloveno Slavoj Žižek, intitulado Vírus.

Para o chefe do Itamaraty, há um uma tentativa de implantação internacional do comunismo valendo-se da situação de emergência sanitária e econômica criada pelo novo coronavírus. Segundo Araújo, a resposta da Organização Mundial da Saúde, adotada por diversos países, transforma o mundo em um campo de concentração. Vale lê-lo:

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“A pretexto da pandemia, o novo comunismo trata de construir um mundo sem nações, sem liberdade, sem espírito, dirigido por uma agência central de ‘solidariedade’ encarregada de vigiar e punir. Um estado de exceção global permanente, transformando o mundo num grande campo de concentração”.

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Entidades judaicas brasileiras e internacionais solicitaram retratação do Ministro. Araújo se negou a fazê-lo.

Por sua vez, a Secretaria Especial de Comunicação (Secom) da Presidência da República, chefiada por Fábio Wajngarten, publicou neste último final de semana a seguinte mensagem: “Parte da imprensa insiste em virar as costas aos fatos, ao Brasil e aos brasileiros. Mas o governo, por determinação de seu chefe, seguirá trabalhando para salvar vidas e preservar o emprego e a dignidade dos brasileiros. O trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”.

A postagem foi prontamente associada à frase escrita nos portões do campo de concentração de Auschwitz: “O trabalho liberta”. Wajngarten se defendeu das acusações, afirmando ele mesmo ser judeu. Entretanto, independente da origem étnico-religiosa de seu chefe, trata-se de uma comunicação oficial do governo, que incentiva que trabalhadores não essenciais voltem às atividades, colocando suas vidas em risco. Em sua forma e conteúdo a mensagem traz similitudes com discursos históricos autoritários — e não deixa de ressoar a uma convocação para um abatedouro em massa.

Ainda que a comparação do discurso político de membros do atual governo com o ideário hitlerista possa soar exagerado a alguns, é importante indagar o porquê dessas constantes referências que nos lembram desse período atroz da história. Ao invés de atribuir ao genocídio judaico o status de evento histórico incomparável, devemos, pelo contrário, utilizá-lo como referência para refletir sobre o presente. Faz-se urgente às forças democráticas, sejam elas de esquerda ou de direita, condenar quaisquer discursos ou posições políticas que se assemelham às do Terceiro Reich.

Vale seguir nas atuais referências ao nazismo. Um dos argumentos ultrajantes nessa maneira de relacionar judeus à eleição de Bolsonaro é questionar que os judeus não aprenderam nada com o nazismo. Trata-se de uma virulenta agressão à memória daqueles que sucumbiram nos campos da morte nazistas. Ainda pior: subjaz a este raciocínio o pressuposto de que grandes crimes cometidos por uma população contra minorias pode ensinar algo sobre o mundo  àqueles que sofreram a violência. Ou seja, a afirmação leva embutida em si a ideia de que a violência possui uma capacidade pedagógica.

Nenhuma minoria deve ser cobrada por aprender algo com a violência que lhe é infringida, e isso vale não apenas para o genocídio judaico, mas para tantas outras atrocidades cometidas pela humanidade.

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(Wikimedia Commons)

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Diversidade

Desde o fatídico dia em que Bolsonaro foi falar na Hebraica do Rio de Janeiro, sua imagem passou a ser associada aos judeus brasileiros como um todo. Desse imaginário que se construiu em torno da comunidade judaica, não fazem parte os judeus que protestaram do lado de fora do clube, nem a pessoa que, de dentro, filmou e vazou o conteúdo como forma de denunciar os impropérios racistas ali proferidos. “Esquece-se” também, com alguma frequência, que o clube Hebraica de São Paulo, com número maior de sócios do que o seu par carioca, não permitiu a visita do presidenciável.

Ainda assim, de fato, há de se reconhecer: muitos judeus votaram em Bolsonaro. E sem dúvida há empresários judeus que possuem poder de influência no governo junto ao presidente. Mas isso não representa a posição da comunidade judaica brasileira, um grupo heterogêneo, com pessoas de esquerda e de direita, com pobres e ricos. Alguns são empresários de sucesso, outros possuem baixíssima condição financeira, como os que recebem apoio de instituições de caridade como o Ten Yad — que fornece alimentação digna a judeus e não judeus no bairro do Bom Retiro.

Se houve aqueles que ajudaram a eleger Bolsonaro, é verdade também que um número expressivo de judeus protagonizou manifestações de rua e em grupos nas redes sociais contra a eleição do atual presidente. Tanto no campo da esquerda como no da centro-direita. É digno de nota o grupo “Judeus contra Bolsonaro”, que deu origem ao “Judeus Pela Democracia”, coletivo numeroso que tem tido destaque na imprensa e nas redes sociais.

O comportamento eleitoral dos judeus brasileiros em 2018 não difere daquele de demais minorias. Se é certo que muitos LGBTQI+ ajudaram a eleger o atual governo, muitos foram os que se opuseram; se muitas pessoas negras votaram em Bolsonaro, numerosas foram as que se somaram à oposição. Como típico fenômeno totalitário, o autoritarismo de Bolsonaro não ganhou terreno em detrimento da vontade da população, de cima para baixo, recorrendo-se ao uso da força. Pelo contrário, o presidente foi alçado ao governo por vontade popular e com participação de todos os grupos que compõem a sociedade. Nunca é demais dizer: estes mesmos grupos contam com membros que compõem a oposição ao bolsonarismo.

Existe há muito uma perspectiva obscurantista acerca dos judeus como um grupo fechado em si, com relações obtusas com o poder, detentores de imensas fortunas e controladores da mídia. De certo modo, esse ponto de vista sobrevive e dá sustento à tese de um conluio judaico a favor do bolsonarismo.

Como toda forma de preconceito, diz mais a respeito de quem acusa do que do acusado.

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Camisetas de futebol e bandeiras

O sequestro ocorre em várias escalas, inclusive identitária. Quando nos propusemos a escrever esse artigo a quatro mãos, percebemos que partes de nossas famílias provêm da recôndita região conhecida sob o nome de Bessarábia, formada por vilarejos incrustados entre a Romênia, a Moldávia e a Ucrânia. Vieram ao Brasil, e aqui se fixaram. Adquiriram plena cidadania, como tantos libaneses, sírios, italianos, espanhóis e portugueses. Eles não passaram por Israel.

Por que, então, os judeus brasileiros são automaticamente impelidos e coagidos a responderem pelas políticas do governo israelense ou por qualquer declaração de membros da comunidade judaica? E por que são associados sempre aos israelenses favoráveis, por exemplo, à ocupação de territórios palestinos na Cisjordânia ou ao cerco à Faixa de Gaza, e não com aqueles que se opõem às ocupações? E por que, sempre que se fala de judeus no atual contexto brasileiro, vem em mente aqueles que estavam dentro da Hebraica do Rio de Janeiro, assistindo as injúrias de Bolsonaro, e não os que protestavam do lado de fora?

A dimensão simbólica da vida, nos ensinam humanidades da semiologia à ciência política, importa. Quais símbolos se associam a quem, é elemento estruturante de qualquer processo político.

Basta pensarmos em outro sequestro simbólico, o da camiseta da Seleção Brasileira de futebol por grupos de extrema-direita. Não faltam relatos de torcedores brasileiros fanáticos desconfortáveis em vestir a camisa. Aquela que era símbolo de uma nação amiga, do bom futebol, distribuída como presente para amigos estrangeiros, é hoje vista com ceticismo.

Será possível recuperá-la? Para tanto, será necessário desassociar a camisa da seleção do bolsonarismo. Tarefa igualmente urgente cabe para a imagem dos judeus, hoje sequestrada por esta narrativa da extrema-direita.

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(Foto: Sérgio Lima/AFP)

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Fábio Zuker é jornalista especializado na cobertura da Amazônia e doutorando em antropologia social pela USP. É autor dos livros Vida e morte de uma baleia-minke no interior do Pará e outras histórias da Amazônia e Em Rota de Fuga: ensaios sobre escrita, medo e violência (no prelo).
Rafael Kruchin é Coordenador Executivo do Instituto Brasil-Israel e mestre em sociologia pela USP, com pesquisa sobre políticas públicas no campo da pobreza. Trabalhou no CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, no núcleo de Cidadania, Saúde e Desenvolvimento.