Nossos desastres e nosso arquidesastre

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Enquanto o Mundo se Desfaz, livro de Rodrigo de Lemos — colaborador do Estado da Arte — é um ensaio sobre ler ‘A Peste’, de Albert Camus, em tempos de quarentena. Pela editora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, trata-se de uma alentada reflexão sobre a mensagem de Camus e La peste no mundo de hoje.

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(Reprodução)

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No Estado da Arte, além do link para download gratuito, o leitor encontra ‘Nossos desastres e nosso arquidesastre’ — trecho do livro que serve de paradigma para compreensão do ensaio camuseano e para um contato com a erudição e a elegância da prosa de Rodrigo.

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Camus

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Nossos desastres e nosso arquidesastre

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O ensaio camusiano está muito longe de se regozijar na visão do mundo angélico ao fim das Reflexões sérias, de Defoe. Longe disso, está precisamente na ausência do divino — questão ainda mais candente do que a da possibilidade da sua mera inexistência — o problema comum a O mito de Sísifo e a O homem revoltado. Ademais, a constatação dessa ausência oferece um fio unificador dessa escrita de ideias com a alegoria de A peste, em especial nas dimensões histórica e moral.

Ambos os ensaios, separados por quase dez anos, articulam uma dialética entre o absurdo (cuja personificação é Sísifo) e a revolta (anunciada desde o título do segundo livro e encarnada no mito de Prometeu). São tantas maneiras distintas de evocar o que poderíamos chamar de nosso arquidesastre, subjacente aos nossos momentos de aparente normalidade e aos nossos desastres específicos, o qual descrevemos em seguida.

Permitimo-nos esta digressão a fim de expor como a perspectiva do arquidesastre pode afinar nossas concepções sobre a própria concepção de desastre (e da qual a peste em Orã é apenas uma ocorrência entre tantas, embora significativa). Ela opera uma importante inversão no modo de ver. Isso porque essa ideia do desastre, sempre ideia de um desastre, é primeira a surgir em nossa consciência quanto à do arquidesastre, antecedendo-a enquanto fenômeno e empiria; entretanto, na visão que doravante propomos, ela seria, na verdade, uma realidade secundária e ontologicamente dependente do arquidesastre, esse sim nossa condição primeva. Explica-se: o pensamento que só reconhece o desastre (ou desastres) pode inclinar-se a imaginar a errância do homem no mundo como uma caminhada de duração indefinida, tendo ele os pés solidamente firmes numa gigantesca planície terrosa, em aparência sem limites; um dia, sem que ele espere, um buraco, contingente e imprevisível — um desastre: peste em Orã, guerra, câncer, desamor, suicídio —, traga seus passos e interrompe a marcha; não fosse esse buraco, assim vai sua crença, ela poderia prosseguir continuamente.

Ora, a metáfora de nós mesmos e do que somos sofre importantes modificações ao seguirmos a picada aberta pelo pensamento do arquidesastre. Nela, somos patinadores condenados a deslizar sem trégua num infinito lago de gelo fino; sabemos que, em algum momento (agora, no próximo instante, em dois dias, em cinco anos), pela própria situação das coisas no tempo, o gelo vai romper; vão assomar (ou nos sorver) as potências selvagens e destrutivas do arquidesastre que esperam sob nossos pés, jazendo abaixo do branco liso em que patinamos, tranquilos; estamos conscientes de que o momento em que o buraco no gelo se alargar e em que o desastre se proclamar (ou um desastre: peste, guerra, câncer, desamor, suicídio) nada mais será do que a manifestação empírica e necessária do que estava dado a acontecer, sendo variável apenas o ponto em que o gelo quebraria, se hoje ou amanhã, bem como a forma específica e individual do desastre com que o arquidesastre nos absorveria em suas águas gélidas. E, no entanto, patinamos mais cem, mais duzentos metros, sabendo-nos aleatoriamente poupados; conseguimos terminar mais um parágrafo, concluir uma conversa ou um filme ou uma canção, aliviados, sem que o telefone toque com péssimas notícias, nem que caiamos da atmosfera, onde respiramos despreocupados, até as águas turvas, asfixiantes e enregelantes que jazem lá embaixo, embora nem sempre possamos vê-las. Daí esse sentimento, podemos supor, que assombra Rieux, de que não é dado a homem algum viver plenamente livre enquanto existirem os flagelos. Mas como patinamos sobre eles…

É bem verdade, não haveria, no pensamento do arquidesastre, nada nem ninguém a quem ser grato pelo adiamento momentâneo do nosso desastre pessoal e intransferível; mesmo assim, nossa inconsciência quanto a cada um dos pontos de gelo fino do imenso lago, e também nossa certeza de que toparemos forçosamente com alguma dessas zonas de desastre, ao menos permitem que sigamos na nossa patinação irresponsável e irrefletida, sem nos atirarmos de propósito no primeiro buraco aberto no gelo, por medo de podermos, um dia, ser sugados por ele; até mesmo podemos, em certos momentos, distraídos, apreciar a paisagem de pássaros e de montanhas ao nosso redor. Imbuídos do pensamento do arquidesastre, ao menos, somos capazes de pouparmo-nos ao ressentimento cósmico daquele que acredita na solidez dos seus passos sobre a terra e que, de súbito, vê-se confrontado à sua própria queda em algum buraco fatal. É que a consciência do arquidesastre inscreve na angústia a extensão inteira de uma vida que nela transcorre; talvez valha a pena esperar, em compensação, que ao menos possa poupar-nos a alguns dissabores humilhantes, posto que são fundados em expectativas fantasiosas quanto ao que é um homem e quanto ao solo em que pisa.

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Albert Camus

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Rodrigo de Lemos

Rodrigo de Lemos é doutor em Literatura pela UFRGS-RS e professor de Língua e Cultura Francesa na UFCSPA-RS. Escreve sobre Cinema e Literatura no Estado da Arte.