Ante uma reprodução de Ivan Kramskoi: ‘Cristo no deserto’

por Hugo Langone

I

Sabemos: ao fim de dezembro jaz o céu rasgado. Atravessou-o há um pouco um Deus, a alegria de Deus cindiu-o. Homens, o sorriso divino não se conteve na noite, os anjos vieram de arrasto: o júbilo de um Deus toca a podridão de uns pés descalços, a vigília dos pastores teve luz.  Gloria in excelsis. O sorriso de Deus é a glória, e quis bradá-la ante a face suja dos ignorantes, a uns palmos de seu hálito pútrido. Não temais, senhores. Não temais.

II 

Mas, aqui, quando a ordem das coisas me dá de presente este quadro, as pedras – notai – fazem sombra, este homem projeta sua sombra. “Vê”, grito-lhe, “vê que o Sol se põe e nada fazer, que o horizonte é infindo”. Os que já tiveram a perder de vista o horizonte, os que já se assombraram ante o sublime, notarão a vastidão, recordar-se-ão da própria pequenez, experimentarão no coração que foi feito para o absoluto. A Ele, porém, isso nada diz. A pedra, cada ranhura na rocha, o Sol, já lhe dão o que pediu. 

III

Que expectativa, pois, poderá ter este, o que tudo sabe? Talvez porque se inclina para a frente, traímos o salmista: não é, Senhor, teu rosto o que buscamos, mas teus pés; e, por eles, os teólogos trairemos, diremos aos eruditos para traí-los que o pão tem seu valor e o sabemos, que antes, quando tinha por cama a palha, ainda havia uma Mãe e um olhar amoroso – e, portanto, a humilhação maior não é fazer-se o fruto do trigo ou o pó da humanidade, mas ser carne e carne suja, ter os pés dos mendigos, dos pastores que a alegria de Deus só tocara no momento último de sua descida à terra, como numa gota final de misericórdia, como se se esticasse.

IV

E então somos gratos pela imobilidade da imagem, pela perenidade da tinta seca, pela inércia da tela. Vislumbramos talvez, assim, como estarão estas mãos na eternidade inteira, como repousam antes e depois e acima do tempo. Somos gratos, Ivan, à imobilidade da imagem porque ali resta claro o que descobriste, que cada tendão e cada nó, cada dobra, Senhor, não foram feitos senão para a posição que agora contemplamos – e eis por que não exigem força, eis por que não exigem consciência: são as mãos que são. Se porventura se soltaram, soltaram-se por ilusão necessária e inconveniente. Perdoa. Sob os braços abertos no madeiro, sob o toque na cabeça das crianças, estiveram assim sempre, antes e depois e acima de qualquer tempo.

Because I do not hope to turn again/ Because I do not hope/ Because I do not hope to turn. E, no entanto, se tu não te viras, é porque tens fixos os olhos neste chão de que fujo, neste chão cujo gosto já se confunde com minha boca. Tu não te viras, homem, mas eu, se não me viro, prostro-me e regalo-me neste solo, revisto-me de lodo como animal são. Tu, que não te viras, não te viras para que eu olhe para ti? Para que eu, o suíno, me volte do solo? Porque não posso beber ali, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam. Because I do not hope to turn again/ Because I do not hope/ Because I do not hope to turn.

VI

Não ouves o sussurro daquele que vem? Ouço os sussurros daquele que vem, Senhor, e não tenho o teu rosto. Deste que vem, Senhor, sou íntimo, e deveria ter eu, já, o teu rosto. Dá-me as palavras acertadas, dizei uma só palavra, porque não posso beber ali e ele vem.

***

Hugo Langone é poeta e doutor em Teoria Literária, autor dos livros Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito (7Letras, 2015), A descida do monte Tabor (no prelo) e Chorar por Dido é inútil: Santo Agostinho, as Confissões e o manejo da literatura pagã (Filocalia, 2017).