O cinema de Joaquim Pedro – Parte 1 – Garrincha, Alegria do Povo

O projeto 3 x 22, iniciativa da Universidade de São Paulo que conta com a parceria do Instituto CPFL e do Sesc-SP, busca promover o debate histórico, artístico, cultural e polí­tico em torno do Bicentenário da Independência do Brasil e do Centenário da Semana de Arte Moderna a serem comemorados em 2022. Como parceiro do Instituto CPFL, o Estado da Arte promoverá uma série de artigos, podcasts, textos clássicos e entrevistas dedicados a reflexões sobre temas nacionais.

por Jeffis Carvalho

O preto e branco cintila na tela. O jogo já terminou e as arquibancadas do Maracanã, num domingo qualquer de 1963, estão quase vazias. Folhas de jornais deixadas ali, que serviram de forração para os assentos improvisados sobre o concreto frio, são levadas pelo vento.  Alguns rapazes, quase garotos, entram em quadro e recolhem as folhas; vão juntando-as para formar fardos, com certeza para vendê-los em seguida e obter algum dinheiro, o que nos remete imediatamente aos garotos que capturavam gatos para vendê-los para os fabricantes de tamborim. Um corte e, no estádio, quase vazio, passa um homem negro, vestido todo de branco, com um guarda-chuva, caminhando solitário. Plano geral e vemos os espectadores restantes, não mais do que dez agora, deixando o Maracanã – que há duas sequências estava tomado por uma multidão ovacionando o excepcional jogador Mané Garrincha. 

Estamos na parte final de Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988). Corta. O trem chega à estação e uma multidão de torcedores desembarca, rumo ao Maracanã – a maioria segue pelas catracas, uns atravessam pelos trilhos, outros pulam os muros da estação e, na cena seguinte, vários pulam os muros do próprio estádio, enquanto a maioria segue pelas entradas oficiais. Mais um jogo do Botafogo. O ciclo recomeça. O jogo tem início e Garrincha, mais uma vez, vai brilhar. Mais ainda, porque no filme de Joaquim Pedro ele divide o protagonismo com a multidão, com o povo a quem faz feliz por algumas horas. As jogadas seguem pelo campo. A genialidade do craque em cada passada, no ritmo de uma sonata de Scarlatti.  É um outro domingo qualquer de 1963.  

Começo pela quase conclusão do filme porque essas sequências, passados mais de cinquenta e cinco anos, parecem concentrar toda leveza e contundência do cinema de Joaquim Pedro de Andrade. Carioca de família mineira, ele fez o Cinema Novo ter um olhar essencialmente poético sobre a realidade – quase sempre dura e cruel, por vezes fugidia e suspensa no ar; outras, esperançosa; muitas, sem sentido; mas todas, por sua lente, e sem exceção, sempre belas. O cinema de Joaquim Pedro é um cinema-poesia sobre o Brasil. Porque, afinal, nas suas palavras, “só sei fazer cinema no Brasil. Só sei falar de Brasil. Só me interessa o Brasil”. 

E o Brasil de Joaquim Pedro que se vê na tela é o Brasil filtrado pela beleza cinematográfica, em seu sentido amplo. Diz ele sobre o filme:

“‘Garrincha’ procura dar, através de uma linha principalmente objetiva de uma estrutura dramática, a verdadeira dimensão psicológica e sociológica desse jogo da vida brasileira. O filme é concebido como espetáculo, procura dirigir as reações da plateia, sugerir conclusões, atrair raciocínio e explicar as possibilidades estéticas.” 

Joaquim Pedro começou a fazer cinema na segunda metade da década de 1950. Ele conta:

“Fiz o curso de física na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, onde comecei a transar com cinema através do cineclube da escola (…) formávamos um grupo do qual vários se profissionalizaram mais tarde em cinema: Paulo Cesar Sarraceni, Marco Farias, Saulo Pereira de Melo, Leon Hirszman e outros. Além de projetar filmes e de editar um boletim informativo, começamos a filmar mesmo, primeiro em 16 mm, cinema mudo, filmes de ficção, em geral curtas. Quase todos os filmes fracassaram, pararam no copião, porque o resultado técnico era desastroso”. 

Depois de realizar três documentários em 1959, o último deles Couro de Gato, ele seguiu para a França, como bolsista de cinema do governo francês e da Fundação Rockefeller em 1961 e 1962.  Lá fez estágios no IDHEC – Institut des Hautes Etudes Cinématographiques, na Cinemateca Francesa; também estagiou na indústria cinematográfica francesa com o produtor Sacha Gordini: na Slade School of Arts em Londres, com Thorold Dickinson; e com os irmãos Albert e David Maysles, em Nova York, para treinamento em técnicas de cinema direto. 

De volta ao Brasil, ele empreende esforços para realizar Garrincha, Alegria do Povo, seu primeiro longa-metragem. Refletindo sobre essa experiência, o cineasta revelou:

“Quando fiz Garrincha, fiz uma experiência na linha que eu trazia dos filmes dos irmãos Maysles, de cinema direto. Eu já estava preocupado com a realidade, querendo uma captação direta, então arranjei esse negócio de estudar com eles para tentar fazer um filme diretamente afinado com a realidade. Não consegui. Por inadequação do material e por inadequação minha com o tema não consegui fazer um filme de cinema direto. Ficou muito mais um filme de montagem, edição de material de arquivo que havia com mais uma filmagem de tipo direto que a gente fez no Maracanã com os jogos que estavam acontecendo naquele tempo. É um filme meio pirotécnico. É um filme agitado.”

A originalidade de Joaquim Pedro, ao contrário do que ele próprio achava na época, está exatamente no trabalho de montagem. Se ele não conseguiu, como queria, realizar um filme do tipo direto, já que trabalhou em grande parte com material de arquivo, sua maestria está em se utilizar de um material já existente e torná-lo esteticamente seu, com o frescor das imagens exclusivas. Joaquim Pedro parecia saber, em seu primeiro filme de longa-metragem, e põe em prática, a grande lição de André Bazin: “o objetivo da montagem é mostrar, mais do que demonstrar”. De certo modo, é mesmo a montagem entendida como a possibilidade de exprimir por meio das imagens a mais pura poesia do futebol; é pôr em evidência a jogada do gênio de Garrincha em sintonia perfeita com as expectativas do público nas arquibancadas. E esse público, como nos diz Joaquim Pedro por meio da montagem, não é mero espectador da genialidade e do talento do craque, ele é cúmplice e co-protagonista. Arrisco dizer que Bazin teria gostado muito do filme, afinal ele é uma prova viva do que escreveu quando analisou os documentários de propaganda de guerra da série Why We Fight, de Frank Capra, produzidos durante a Segunda Guerra Mundial. Disse Bazin: “eles estabeleceram em definitivo, com uma perfeição que dificilmente se pode imaginar que seja ultrapassada, que a montagem a posteriori de documentos criados para outros fins podia ter a flexibilidade e precisão da linguagem. Os melhores documentários de montagem não passavam de relatos, estes são um discurso”. E é como um discurso sobre o futebol e o Brasil, que Garrincha, Alegria do Povo se mostra de uma atualidade assombrosa, cinquenta e seis anos após a sua realização.

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Com certeza, Joaquim Pedro leu André Bazin e aprendeu a lição. O seu curta-metragem Couro de Gato, pequena obra-prima do início do Cinema Novo está aí para corroborar. Essa jóia do cinema curto, que mostra garotos favelados empenhados na captura de gatos para revendê-los aos fabricantes de tamborim (o couro de gato é o melhor para a sonoridade do instrumento)  é um primoroso exercício de narrativa poético-realista, encenado como um conto, um contrastante recorte instantâneo do cotidiano brasileiro, em que as imagens são ao mesmo tempo fotografia e texto no compasso da batida do samba e dos acordes do violão de Carlos Lyra. Sessenta anos depois de sua realização, Couro de Gato mantém-se não só mais atual do que nunca, a mostrar nossa eterna desigualdade, como explode na tela com um frescor narrativo deslumbrante. O recorte moderno de Joaquim Pedro, agora, já se torna eterno.

Pelo encadeamento das imagens de Garrincha em campo e a expressividade de rostos anônimos na plateia maravilhada, Joaquim Pedro como que funde a um só tempo, quase como um momento suspenso no ar sobre o Maracanã, a coreografia imagética do craque genial com a dança de faces do povo – sim, a genialidade de Garrincha nasce no meio de rostos anônimos, algo que ele mesmo era antes de ser alçado à fama dos gramados nacionais e, depois, na consagração em nível mundial. Garrincha é a alegria do povo porque ele próprio encarna o povo. O discurso de Joaquim Pedro é imagético, sem nunca se aproximar de qualquer demagogia, de nenhum tipo de populismo fácil. Na lição de Bazin, ele o faz porque não demonstra nada. Apenas mostra. 

Com essa estratégia, que é pura poesia, Joaquim Pedro promove na tela uma depuração da linguagem do documentário tradicional. Faz uso da narração em off (na voz do grande Heron Domingues) de forma extremamente parcimoniosa. Privilegia um único depoimento de Garrincha e, assim, o jogador tem apenas uma fala e ela está ali para revelar que ele, o ídolo, se submete à vontade do próprio povo. O jogador reclama do constante assédio, e que isso é cansativo. Mas, completa, o povo quer e, por isso, ele precisa ceder, atender, é algo inerente à sua condição de ídolo. Com sua fala simples, sincera, plena de espontaneidade, Garrincha se mostra consciente de seu papel, mas não faz disso nenhuma vantagem, apenas constata. Até ficamos tentados a perguntar: será que Garrincha também leu Bazin?

Se a estética de Joaquim Pedro já se revela madura o suficiente para trabalhar imagens de arquivo e sequências captadas de jogos, do cotidiano do jogador, da torcida, dos bastidores do Botafogo, do vestiário no estádio, do craque e do torcedor anônimo, é na compreensão do objeto investigado que ele se mostra um mestre. É preciso entender o futebol – como esporte, como paixão, como oportunidade e manipulação para saber traduzi-lo com realismo poético. 

Realizado no auge do prestígio mundial do futebol brasileiro, já bicampeão do mundo, com Pelé e Garrincha, Santos e Botafogo encantando plateias planetárias, Garrincha, Alegria do Povo aprimora a poesia imagética de Joaquim Pedro e a expande de dentro para fora, e vice-versa, como sua tradução da própria essência do fenômeno do futebol para o Brasil. Sua compreensão, no início da década de 60 do século passado, antecipa em quase dez anos o que outro grande cineasta definiria sobre o futebol em seu país. Para Pier Paolo Pasolini, como escreve José Miguel Wisnik, em seu livro Veneno Remédio, o Futebol e o Brasil, “ver o futebol ao mesmo tempo de dentro e de fora, suportando a consciência daquilo que ele tem de alienante e manipulado em nome daquilo que tem de autêntico, memorável, apaixonante e inesperado – em outros termos, bem seus, naquilo que ele tem de popular e real”. 

Não se sabe se Pasolini viu Garrincha, Alegria do Povo, mas ali está o que o cineasta italiano defendia sobre a abordagem do fenômeno futebol como esporte popular por excelência. E esse procedimento, para Joaquim Pedro, começava com a compreensão da relação ídolo-torcida e, claro, a gestação do próprio craque no meio do povo – afinal, os maiores craques do futebol brasileiro vieram e vêm das camadas populares. São produtos autenticamente oriundos do povo. 

Mais do que compreender o futebol, Joaquim Pedro entendeu a dimensão de Garrincha, como jogador, como talento nato, como moleque brasileiro que joga por prazer – para o bem e para mal. O Garrincha dele é o de todos nós, na sacada também precisa de José Miguel Wisnik:

“Garrincha é trabalhador amador que viveu voltando para a origem, o mato e a pelada, de parecer nunca ter saído. 

Como no trecho em que Chico Buarque fala dele:

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé  

(Chico Buarque, Futebol)

Garrincha leva a um extremo incomum, ali, as possibilidades do drible – que é finta, negaceio, movimento que se dá e não se dá, em fração de segundo, confundindo a expectativa do adversário e explorando essa confusão instantânea.”

Ao concluir, podemos dizer que Wisnik faz, mais de quatro décadas depois, a ponte que o próprio Joaquim Pedro fez no desenvolvimento de seu cinema:

“Como o Brasil atávico, Garrincha está na zona ambígua entre o mito e a história, a natureza e a cultura, a aparição moderna e a expressão mais acabada da espécie. Exatamente como Macunaíma, habitando o continuum por onde passam o índio, o negro e o branco, o bicho do mato, o curupira, o Pedro Malasartes, o malandro, o aprendiz de operário numa ordem social hábil, mais a transfiguração de tudo isso. O resumo miraculoso e anômalo do país novo, na acepção de Darcy Ribeiro, como resultado de sucessivas aculturações e deculturações.”

Do individual para o coletivo. Do campo para a arquibancada. Em Garrincha, Alegria do Povo mais do que deslocar a câmera de um para outro, o que Joaquim Pedro faz é adotar uma posição  política – no seu sentido mais amplo –, qual seja a de que o futebol, tantas vezes usado como metáfora do país, de suas qualidades e desgraças, é algo que transcende o discurso fácil, porque na verdade toca a alma de um povo. Ao mesmo tempo, o cineasta sabe e nos mostra esteticamente que a ginga do futebol é manipulada por interesses – sejam econômicos, políticos, simbólicos.  Como destaca a pesquisadora Luciana Araújo, em seu ensaio A Paixão Medida, “Joaquim Pedro começa com o talento e a fama de Garrincha para chegar a uma sucessão de rostos anônimos no estádio e sobrevoar um Maracanã que mais parece um organismo vivo, pulsando com o fervor dos torcedores. Quando entra a última imagem – uma foto de Garrincha preso nas redes do gol, com o corpo suspenso no ar, sem tocar no chão -, ela já não diz respeito apenas ao caso individual do jogador. Funciona sobretudo como uma poderosa tradução visual da ideia sobre a qual o filma se estrutura: o futebol como armadilha ideológica”. 

Atento ao cinema de seu tempo, que rompia barreiras estéticas e políticas, Joaquim Pedro tem no seu primeiro longa-metragem a ousadia suprema de congelar o instante da jogada, do drible, do gol, símbolos máximos da própria imagem em movimento. Com cenas estáticas de momentos cruciais do futebol, opta pelo tratamento de fotos em deslumbrante preto-e-branco. Nesse momento em que o cineasta põe o futebol quase suspenso no ar em seu clímax, entendemos a sua mensagem: psiu, isto é cinema e esse é o realismo possível. 

Por que você faz cinema? – perguntaram a Joaquim Pedro de Andrade, um ano antes de sua morte, em 1988. Ele respondeu com a sinceridade, a espontaneidade e a verdade de sua arte:

“Para chatear os imbecis. Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito. Para viver à beira do abismo. Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público. Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem. Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo. Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena. Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito. Porque vi Simão no Deserto. Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema. Para ser lesado em meus direitos autorais.” (Publicado em Pourqoi Filmez Vouz/Libération/Paris/maio de 1987.)

Confira os três programas especiais do Café Filosófico CPFL da série 3 x 22 dedicados à Semana de Arte Moderna:

  • A Música na Semana de Arte Moderna, com a professora da USP Flávia Toni 

 

  • As Artes Visuais na Semana de Arte Moderna, com a professora da USP Ana Paula Cavalcanti Simioni:

  • A Literatura na Semana de Arte Moderna, com o professor da USP Ivan Marques:

Jeffis Carvalho

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, pesquisador de cinema e consultor de comunicação.