Pecado e santidade na alma em ruínas

por Rodrigo Coppe Caldeira

“Ai daquele que deseja o dia do Eterno!
Para que desejais o dia do Eterno?
Ele é obscuridade, e não luz! […]O dia do Eterno é obscuridade, e não luz!
Sim, densas trevas, sem uma mostra de claridade.”
Amós, 5, 18-20

Otto Maria Carpeaux, numa crítica ao conjunto da obra de François Mauriac, dizia que o escritor francês, além de um clássico, excedia pelo valor literário todos os seus correligionários precedentes. Sua superioridade, segundo o crítico literário, estava no fato de que ele reconhecia a realidade do pecado. O pecado, esse conceito teológico malquisto, pouco apreciado e muito mal compreendido pelos contemporâneos, foi certamente fonte, influência e objeto de alguns dos literatos católicos mais prolíficos do século XX. Todos eles bem íntimos dessa ferida anímica. O romancista católico é, assim, aquele que conheceu a realidade do pecado.

No Brasil, um desses romancistas que nutria certa intimidade com o pecado foi Lúcio Cardoso (1912-1968). Se Georges Bernanos foi considerado o “Dostoiévski francês”, Cardoso ficou conhecido como o “Dostoiévski mineiro”. Escritor de sondagem psicológica e intimista, Cardoso esteve ligado por toda a vida à trupe espiritualista e católica brasileira: Otávio de Farias, Jorge de Lima, Cornélio Pena, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes. Era um “inventor de totalidades existenciais”, como bem o definiu Alfredo Bosi, com textos cravados de elementos filosóficos e psicológicos. Produziu extensa obra literária entre os anos de 1930 e 1960. Lúcio Cardoso foi influenciado de maneira particular pela pena dos escritores católicos franceses: Léon Bloy, Charles Péguy, Julien Green, além de Blaise Pascal e dos próprios Mauriac e Bernanos. E, claro, o russo Fiódor Dostoievski. E se, como diz Carpeaux, “todo o romance tradicional francês, essa maravilha de construção psicológica, gira em torno da mesma palavra, que é também a palavra-chave de Mauriac: o pecado”, Cardoso não pôde passar ileso.

Cardoso desenvolveu uma crítica voraz ao catolicismo de seu tempo, não se esquivando em lançar fortes reprimendas aos caminhos pelos quais a Igreja romana adentrava, em sua busca de se tornar mais “palatável” aos homens e mulheres do tempo. Em um dos momentos altos de seu Diário (1949-1962) – no qual podemos encontrar inúmeras referências de seus tormentos religiosos –,  Cardoso dispara:

“Cada dia compreendo mais nitidamente que não perdemos o Cristo, como tantos pensadores modernos gostam de afirmar, mas fizemos o pior, porque o substituímos (…). Cristo, tal como o herdamos dos antigos, exigia que estivéssemos à altura de sua grandeza. Mas preferimos adaptar um outro às nossas minúsculas necessidades, um Cristo ideal ao tempo em que vivemos, standartizado, sindicalizado, racionalizado (…) assim nos ajoelhamos diante de um Cristo talhado à medida para um tempo sem estatura. É este, sem dúvida, o grande crime da Igreja: ter fornecido às multidões cegas um Deus tranquilo, sem vitalidade, um Cristo sem martírio e sem lágrimas (…) Não é este o que encontramos, quando em nós há uma convulsão ou uma ânsia pelas coisas extremas: o que deparamos então é um vácuo que não corresponde mais aos pobres mistifórios, sucintos e bem-comportados, que nos serviram como sucedâneos da verdade.”

Seria o cristianismo reduzido a um simples humanismo entre tantos outros uma das questões que aflige Cardoso, em que a própria metanoia está em jogo? Um cristianismo sem cruz, Evangelho e Revelação? Reduzido a fórmulas de “boa consciência” para os ditames de um paladar pouco afeito ao amargor dos tormentos humanos? Um Deus açucarado, enfim?

É o Cristo do paroxismo aquele que Cardoso advoga, “despojado e nu, com o corpo coberto de cicatrizes”. Aquele que vem de encontro à superficialidade vazia de um tempo em que se deseja abolir o pecado como ideia e manifestação, em vista de uma tranquilidade burguesa, orgulhosa de seus feitos. É sempre contra um Deus tranquilo que se levanta, e por isso a centralidade do pecado: “Uma das formas do ódio a Jesus Cristo: a náusea ante a profundidade. Cristo pertence a tudo, menos a um conhecimento de superfície”. Atravessado por um furor místico e profético, o escritor mineiro busca perscrutar o mistério, que tem o mal como ator de primeira grandeza. Conhecer a Cristo em profundidade é certamente estar consciente da realidade do mal e as consequências da perda da presença vivificante de Deus – o pecado. Estar nele imerso é experimentar a servidão, um estado existencial em que a liberdade não pode ser plenamente saboreada. No entanto, saber-se ali, vendo-se preso em suas teias, é reconhecer a vitória da graça, a solicitude de Deus para conosco. É na obscuridade que Deus se revela, nas sombras que sua luz se manifesta. Não se toca em seu mistério, sem a contrapartida do pecado. Por isso experimentar o mal já é uma forma de graça. Só se pode reconhecer-se pecador à medida em que a graça já se faz presente e vitoriosa. É onde “reside o mal, e se conhece a projeção sombria da vida […] existe uma furiosa nostalgia de Cristo. Mas onde só existe um esboço paroquial, pacificado e em ordem com os problemas da Igreja, não existe o Cristo […] Cristo é um esforço pessoal e uma voz íntima, um combate de cada um.” Só é possível compreender a experiência da graça a partir da percepção da desgraça. A crítica cardosiana tinha como alvo uma igreja que perdia progressivamente a noção de pecado, mas que em sua alma tiritava incessantemente. É ali, onde grassa o mal, que a misericórdia e a salvação se dispõem.

É sob o peso do mal que não só seus personagens parecem derreter, mas também o próprio escritor. O mal entendido como passividade, superficialidade, estabilidade, comodismo, indiferença. “O diabo, minha filha, não é como você imagina. Não significa a desordem, mas a certeza e a calma”, diz padre Justino, num dos trechos da obra máxima, Crônica da casa assassinada (1959). Em outro momento de sua conversa com Dona Ana, o padre exclama: “Quero reinstalar o pecado na sua consciência, pois há muito que você o baniu do seu espírito, que o trocou definitivamente pela certeza […] Não há caos, nem luta e nem terror no fundo do seu ser. Quero reinstalar nele a consciência do pecado […] Minha filha, o abismo dos santos não é um abismo de harmonia, mas uma caverna de paixões em luta”. Não é na quietude, na tranquilidade que se encontra Deus. Mas na instabilidade, no movimento, na desordem e no caos. O mal está, por outro lado, onde a mansidão se instalou. “Deus é acontecimento e revelação. Como supô-Lo um movimento estático, um ser de inércia e de apaziguamento? Sua lei é a da tempestade, e não a da calma”, diz o padre.

A consciência do pecado parece não fazer Cardoso aderir de maneira simplista e linear à revelação cristã. Ele sempre nos deixa em dúvida para onde pende. A sensação é de que está ali, no limiar entre o trágico e a redenção, sem conseguir se decidir. Deve ser por que a consciência trágica, como nos lembra George Steiner, é insuportável para a vida humana. Não permite qualquer lampejo de reparação. Não há felix culpa, mas apenas perdição e degredo. Mas Cardoso deixa a porta aberta e não se deixa ser sorvido totalmente pelo mal: “o Mistério é a única realidade deste mundo. E, se dele temos tão grande necessidade, é para não morrer do conhecimento dos nossos próprios limites, como as criaturas loucas e martirizadas a que tentei dar vida”.

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Rodrigo Coppe Caldeira

Rodrigo Coppe Caldeira é Historiador e Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É líder do Laboratório de Estudos em Religião, Modernidade e Tradição (LeRMOT) da PUC Minas. (As opiniões do autor são de cunho pessoal e não refletem necessariamente a posição oficial da instituição). (Twitter: @rodrigocoppe)