A Peste no De rerum natura (6.1138-286) de Lucrécio – Parte VI

por Alexandre Pinheiro Hasegawa

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Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

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Quis potis est dignum pollenti pectore carmen

condere pro rerum maiestate hisque repertis?

(DRN 5.1-2)

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(Wikimedia Commons)

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O episódio da peste no De rerum natura (DRN) de Lucrécio nos obriga a olhar para a morte: muitos corpos acumulados sobre inúmeros outros, todos inanimados, crianças sobre os pais e mães sobre os filhos. Descrevem-se cenas carregadas de pathos em que vemos os cadáveres espalhados por todos os lados. Nos trechos da última parte que apresentamos hoje na série do Estado da Arte é notável a repetição da palavra corpus: corpora (1256, 1265 e 1285), corpore (1268), corporis (1270), corporibus (1273). Das seis ocorrências, nos mais diversos casos, no singular e no plural, o termo ocupa quatro vezes lugar de destaque: a posição inicial do verso. Tal mortandade, que causaria repugnância, se a presenciássemos, pode ser acompanhada com algum prazer na descrição do poeta. Parece, portanto, que algo desagradável pode tornar-se deleitável, quando coberto “pelo doce e dourado líquido do mel” da poesia (DRN 1.938 = 4.13).

A discussão, porém, sobre a representação do que se considera feio ou repugnante, como cadáveres, já se encontra na Poética de Aristóteles (IV, 1448b). Ao discutir as causas da origem da poesia, o filósofo afirma que todos se comprazem com a imitação. De acordo com ele, a prova de tal deleite é a seguinte (na tradução de Eudoro de Souza, com itálico nosso):

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“Sinal disto é o que acontece na experiência: nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, por exemplo, [as representações de] animais ferozes e [de] cadáveres. Causa é que o aprender não só muito apraz aos filósofos, mas também, igualmente, aos demais homens, se bem que menos participem dele. Efetivamente, tal é o motivo por que se deleitam perante as imagens: olhando-as, aprendem e discorrem sobre o que seja cada uma delas, [e dirão], por exemplo, ‘este é tal’.”

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A discussão sobre a imitação é longa e complexa, não cabendo nos limites deste texto. No entanto, é preciso ainda lembrar que Lucrécio, autor do séc. I a.C., não imitou exatamente o que viu, algo que vivenciou, presenciando o acúmulo de corpos sobre corpos, pois é um relato da peste que acometera Atenas em 430 a.C. O poeta, como se sabe, imitou o que leu, especificamente a narração de Tucídides no segundo livro da História da Guerra do Peloponeso (47-54) — o episódio pode ser lido no Estado da Arte na tradução de Márcio Mauá Chaves Ferreira. Embora Lucrécio siga, por vezes, o texto grego de perto, não se trata de tradução, como ressaltamos ao longo dos nossos textos. Há diferenças significativas entre o historiador grego e o poeta latino: o primeiro escreve em prosa e o segundo compõe versos; versos que, por sua vez, serão imitados por outros poetas latinos, como Virgílio, Horácio e Ovídio.

Ainda que Aristóteles na Poética (IX, 1451a-b) afirme que o historiador e o poeta não diferem entre si por um escrever em prosa e o outro em verso, a elocução de Lucrécio, com seus hexâmetros datílicos, insere o DRN no gênero épico. O próprio poeta, logo no início, menciona dois modelos importantes desta tradição: Ênio (1.117) e Homero (1.124). Porém, a matéria do poema lucreciano é muito diferente dos dois poetas referidos. Neste aspecto, o autor do DRN tem mais semelhanças, por exemplo, com Empédocles, também autor de poema hexamétrico sobre a natureza (Περὶ Φύσεως: “Da natureza”). Lucrécio, porém, como sabemos, procura transmitir os ensinamentos do filósofo Epicuro ao discípulo Mêmio.

É possível, assim, ter prazer na leitura do relato lucreciano, apreciar os versos e aprender com eles. Será Horácio posteriormente, em sua Arte Poética, texto de que já tratamos aqui, quem dirá que “os poetas desejam ou ser úteis ou deleitar” (v. 333: aut prodesse volunt aut delectare poetae), “ou dizer, simultaneamente, não só coisas agradáveis, mas também apropriadas à vida” (v. 334: aut simul et iucunda et idonea dicere vitae). O poeta conclui mais à frente em versos hexamétricos (343-344), provavelmente retomando as doutrinas peripatéticas de Neoptólemo de Pário: “levou todos os votos quem misturou o útil ao doce,/ deleitando e, ao mesmo tempo, instruindo o leitor” (omne tulit punctum qui miscuit utile dulci,/ lectorem delectando pariterque monendo). Para que o leitor, então, pudesse provar um pouco deste mel na nossa tradução pedestre do sublime Lucrécio, enquanto aprendia com o amargo sabor da morte, chamamos atenção nos comentários para os variados ornamentos nos hexâmetros do Da natureza das coisas.

Esperamos, com tal série de textos, não ter sido como a velha alcoviteira de Ovídio, feiticeira e tagarela, escondendo ímpios venenos sob o doce mel (Amores 1.8.104: impia sub dulci melle venena latent). Que o leitor possa deleitar-se e aprender de novo com a poesia de Lucrécio — doce mediação entre nós e o mundo — neste último texto da série sobre a peste no De rerum natura!

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Manuscrito do DRN no acervo da biblioteca da Universidade de Cambridge (Wikimedia Commons)

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Lucrécio 6.1256-1261: A Peste (3.2)

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ēxănĭmīs pŭĕrīs || sŭpĕr ēxănĭmātă părēntŭm

cōrpŏră nōnnūmquām || pōssēs rētrōquĕ vĭdērĕ

mātrĭbŭs ēt pătrĭbūs || nātōs sŭpĕr ēdĕrĕ vītăm.

nēc mĭnĭmām pārt(em) ēx || āgrīs īs maērŏr ĭn ūrbĕm

cōnflūxīt, lānguēns || quēm cōntŭlĭt āgrĭcŏlārŭm……………………..1260

cōpĭă cōnvĕnĭēns || ēx ōmnī mōrbĭdă pārtĕ.

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Poderias, por várias vezes, ver os exanimados corpos

dos pais sobre as exânimes crianças, e, inversamente,

os filhos a perder a vida sobre as mães e os pais.

E não em mui pequena parte dos campos para a cidade

confluiu esta tristeza, que trouxe uma multidão doente,……………11260

enfraquecida, de agricultores, acorrendo de toda parte.

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O destaque inicial dos corpos exânimes das crianças — imagem mais terrível do que os corpos dos pais — é reforçado pelo homeoteleuto dos dois termos: exanimis pueris (“as exânimes crianças”). O verso, inteiramente datílico — raro e único nos trechos comentados aqui —, é formado ainda pelo par aliterativo pueris (“crianças”) e parentum (“pais”): o primeiro termo disposto no fim do primeiro hemistíquio e o outro na conclusão do segundo hemistíquio. Ademais, a repetição de som, pela paronomásia orgânica entre exanimis (“exânimes”) e exanimata (“examinados”), reforça o acúmulo de corpos, de pais e filhos, amontoados uns sobre os outros.

Em seguida, valendo-se de sinonímia, descreve novamente o acúmulo de corpos mortos de modo quiástico: se, primeiramente (v. 1256), o poeta menciona os corpos das crianças (pueris) e depois os dos pais (parentum); em seguida (v. 1258), fala inicialmente dos pais (matribus et patribus) e por fim dos filhos (natos). A disposição cruzada dos termos, a formar o quiasmo — figura que recebe o nome da letra grega χ (khi) —, parece apropriada a fim de descrever a mistura dos corpos, sobrepondo-se uns aos outros, sem a separação de adultos e crianças.

Há algumas repetições na passagem, às vezes da mesma palavra sem alteração (super: 1256 e 1258), às vezes com poliptoto (partem e parte: 1259 e 1261); encontra-se repetição de som ainda, como a aliteração em /c/ (vv. 1260-1261: confluxitcontulit …/ copia conveniens …), com destaque para o prefixo con– nos três verbos. Acima, tínhamos comentado já outras repetições, como o homeoteleuto logo no início do trecho: exanimis e pueris. Este mesmo som –is é repetido um pouco depois (1259: agris is). Aqui, porém, os sons estão contíguos, a sílaba final de uma palavra é a mesma da seguinte. Tal construção, de acordo com Quintiliano (Formação do Orador 9.4.41; 11.1.24), deveria ser evitada, percebida como viciosa, ainda que ocorra no famoso verso de Cícero, de ritmo predominantemente espondaico: o fortunatam natam me consule Romam (“ó afortunada Roma, nascida no meu consulado”). Se, porém, no verso ciceroniano as duas sílabas se repetem, com mesma quantidade e o acento tônico do pé na mesma sílaba (natám), em Lucrécio o primeiro –is é forte e o segundo é fraco.

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Lucrécio 6.1262-1271: A Peste (3.3)

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ōmnĭă cōnplēbānt || lŏcă tēctăquĕ; quō măgĭs aēstū

cōnfērtōs || ĭt(a) ăcērvātīm || mōrs āccŭmŭlābăt.

mūltă sĭtī || prōstrātă vĭām || pēr prōquĕ vŏlūtă

cōrpŏră sīlānōs || ăd ăquārūm strātă iăcēbānt……………………………………………1265

īntērclūs(a) ănĭmā || nĭmĭ(a) āb dūlcēdĭn(e) ăquārŭm,

mūltăquĕ pēr pŏpŭlī || pāssīm lŏcă prōmptă vĭāsquĕ

lānguĭdă sēmănĭmō || cūm cōrpŏrĕ mēmbră vĭdērēs

hōrrĭdă paēdōr(e) ēt || pānnīs cŏŏpērtă pĕrīrĕ

cōrpŏrĭs īnlŭvĭē, || pēllī sŭpĕr ōssĭbŭs ūnā,…………………………………………………1270

ūlcĕrĭbūs taētrīs || prŏpĕ iām sōrdēquĕ sĕpūltă.

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Preenchiam todos os lugares e tetos; aos montes, a morte

os acumulava ainda mais, assim amontoados pelo calor:

muitos corpos, prostrados por terra pela sede e re– pelo

caminho –virados, jaziam abatidos junto às fontes de águas,………………………1265

cortada a respiração pela excessiva doçura das águas,

e verias muitos membros lânguidos, com o corpo semimorto,

pelos caminhos e locais públicos, por toda parte,

a perecerem, horríveis, cobertos por panos e imundice.

com a sujeira do corpo, só com a pele pegada aos ossos,…………………………….1270

e já quase sepultados pelas tétricas feridas e sordidez.

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O adjetivo omnia (“todos”), no início do trecho e retomado no começo do próximo (v. 1272), enfatiza, hiperbolicamente, os lugares em que se encontravam os corpos acumulados pela morte. A posição do neutro plural (nominativo ou acusativo), no princípio do hexâmetro datílico, é muito comum, assim como no quinto pé, em geral penúltima palavra do verso. Para ficar apenas no livro 6 do DRN, das 39 ocorrências do adjetivo nesta forma (neutro plural, nominativo ou acusativo), o termo ocupa a primeira posição 17 vezes e, em igual quantidade, forma o quinto pé, sendo a penúltima palavra do verso; somente em 5 versos não está nestas duas posições. O termo é muito conveniente na formação do hexâmetro datílico, como a palavra aurea (áureos), adjetivo no neutro plural, acusativo ou nominativo (cf. DRN 3.11-13, em que também aparece omnia).

Além disso, o adjetivo omnia não só inicia um pequeno quadro descritivo, fazendo o movimento do geral para o particular, como nos foi sugerido por Eduardo Henrik Aubert, mas também promove conexão com a parte anterior, que se concluía com ex omni … parte (v. 1261: “de toda parte”).  Sobre os adjetivos usados na passagem, vale a pena ressaltar ainda a imagem de excesso, enfatizada pelo uso do adjetivo multus (“muito”), repetido duas vezes em início de verso (1264 e 1267: multa e multaque), e nimius (“excessivo”) no v. 1266: nimia.

Os corpos não só ocupavam todos os lugares, todas as casas e todos os templos, mas também estavam bem juntos, contíguos, o que parece sugerir a repetição do prefixo con-, acrescido aos verbos, como ressaltamos logo acima (confluxit, contulit e conveniens). Nos dois primeiros versos desta passagem, encontram-se mais dois verbos com o mesmo prefixo: conplebant (v. 1262: “preenchiam”) e confertos (v. 1263: “amontoados”).

Comentamos neste espaço, em texto sobre a Arte Poética de Horácio, o uso significativo de monossílabo em fim de verso. Há muitos versos que terminam desta forma nas Sátiras e Epístolas de Horácio (em Sátiras 1.1, por exemplo, há 13 ocorrências). Uma forma, porém, de suavizar o estranhamento percebido pelos antigos em tal construção é antepor ao fim outro monossílabo, o que frequentemente ocorre nos hexâmetros horacianos. Contudo, em trecho discutido por nós no Estado da Arte, um polissílabo é anteposto ao monossílabo final (Arte Poética 139): parturient montes, nascetur ridiculus mus (“parirão os montes, nascerá um ridículo rato”). Na passagem de Lucrécio (v.1263), porém, ocorre o oposto: antepõe-se um monossílabo (mors: “morte”) ao polissílabo conclusivo (accumulabat: “acumulava”), construção que também chama atenção, enfatizada por ocupar a parte final do hexâmetro, separada pela cesura. Efeito semelhante, encontra-se em DRN 3. 71, com o mesmo verbo accumulare no particípio presente: … caedem caede accumulantes (“acumulando matança sobre matança”). A longa palavra, assim, é adequada a descrever a grande quantidade de corpos acumulados, aos montes, pela morte. Para o monossílabo mors (“morte”) em fim de verso, ver Sátiras 1.7.13, em que a palavra é antecedida por polissílabo: diuideret (“separaria”).

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No Meio do Caminho Tinha uma Tmese

No v. 1264, assim como nos vv. 1267 e 1269, há forte aliteração em /p/: prostrata, per e proque. Neste verso, porém, chama mais atenção a quebra que se realiza da palavra provoluta. Tal recurso é chamado tmese (τμῆσις: “corte”), fato semelhante — poder-se-ia comparar — ao que ocorre na mesóclise. A tmese ocorre quando a palavra é dividida em duas partes e entre elas se interpõem outra ou outras. Na passagem, o outro termo é –que (“e”), partícula enclítica que se prende ao prefixo pro-, formando proque. Reescrevendo, sem a tmese e a enclítica, teríamos: et provoluta (“e revirados”; traduzido: “e re– […] –virados).

Lucrécio faz uso frequente da tmese, metaplasmo que já se encontra em Homero. É possível, porém, que no autor da Ilíada e da Odisseia a tmese mostre um momento em que o prefixo — em geral uma preposição — ainda não estava unido ao verbo. Seja como for, o recurso já tinha sido usado antes de Lucrécio, em Ênio, importante modelo do autor do DRN. Em um suposto fragmento do autor dos Anais (fr. 390 Skutsch) há uso mimético da separação, não de verbo, mas de substantivo (cerebrum: cérebro): saxo cere comminuit brum (“com uma pedra o cére- despedaçou -bro”). O leitor vê no verso o “cérebro” despedaçado. Há alguns exemplos de uso mimético da tmese em Lucrécio, como em DRN 1.451-2, quando fala de qualidades que não podem ser separadas em determinadas coisas:

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coniunctum est id quod nusquam sine permitiali

discidio potis est seiungi seque gregari.

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conjunto é o que nunca pode ser separado sem

mortal dissolução des- e -agregado ser

[= mortal dissolução e ser desagregado].

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A tmese ocorre na palavra segregari (“ser desagregado”): o prevérbio se– é separado do restante do verbo (gregari). Exatamente como no corte operado no trecho do livro 6 (proque voluta), ao prevérbio une-se a enclítica –que: seque gregari (“e ser desagregado”). A passagem já foi muito bem discutida por Stephen Hinds (1987) — ver a referência completa abaixo —, sem necessidade de retomar neste espaço a engenhosa construção de Lucrécio. Este, contudo, não é um caso isolado no poema. Outras passagens há em que o poeta fala de quebra, separação ou interrupção e faz uso significativo da tmese, como em DRN 1.651; 3.262; 3.860; 5.287; 5.299; 5.1374; 6.332. Destes exemplos, vale destacar a tmese em verbos compostos com a preposição inter (“entre”), que só não ocorre na primeira ocorrência citada (DRN 1.651). Antes de voltar aos trechos do texto de hoje, vejamos ainda outro passo (3.860) com a separação do prevérbio inter, em que o poeta fala da interrupção da vida: inter enim iectast vitai pausa (“foi inter- pois -posta uma paralisação da vida”). Assim, interpõe-se a conjunção enim (“pois”) no verbo interiacere (‘interpor’).

Na passagem da peste, porém, a tmese não é usada exatamente como nos exemplos acima, mas pode ter também um aspecto mimético. O trecho é todo ‘quebrado’: primeiramente, há duas cesuras fortes (a trimímera e a heptemímera), mais raras do que a pentemímera, que ocorre, em geral, sozinha; o longo hipérbato entre multa e corpora (no início do verso seguinte, 1265), com a concordância vertical; por fim, a preposição per posposta ao substantivo que rege (viam). Assim — se não é exagero dizer —, o verso é entrecortado, como seria percorrer um caminho repleto de corpos mortos, cheio de vidas interrompidas!

No v. 1266, há três elisões — fato raro —, com uma única cesura (pentemímera), em construção que se contrapõe ao outro verso (1264), mais entrecortado, como dissemos. A cesura separa o ablativo absoluto (interclusa anima: “cortada a respiração”) do outro sintagma (nimia ab dulcedine aquarum: “pela excessiva doçura das águas”), assim como a morte, interrompida a respiração, separa os homens das fontes de água, que era desesperadamente desejada para matar a sede. A contraposição entre as duas partes também se dá pelas palavras anima (“respiração”) e nimia (“excessiva”), palavras contíguas e paronomásticas, dispostas, respectivamente, no fim do primeiro hemistíquio e no início do segundo.

Chama também atenção o uso da raríssima palavra silanus (1265) para indicar a fonte. A palavra é transliteração de Σιλανός, forma dórica de Σιληνός (“Sileno”), divindade do campo, com características de boi ou bode, conhecido por notável feiura e grande sabedoria. Não à toa, no Banquete de Platão (215a-b), Alcibíades compara Sócrates ao Sileno. Por vezes, os sátiros velhos são chamados silenos. Seja como for, o termo originariamente indicava a fonte cuja água saía da boca de uma estátua ou cabeça de Sileno (ver Giussani e Bailey). Posteriormente, passou a significar qualquer fonte de água em que se colocava um tubo para conduzir a água.

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Todos os Caminhos Levam à Morte

Lucrécio guia nosso olhar por estradas repletas de corpos inanimados. Ele nos faz ver (1268: videres: “verias”) o horror. Neste percurso, o poeta parece enfatizar o caminho (1264 e 1267: viam e viasque). Nas vias percorridas da cidade, tudo é imagem da morte, corpos prostrados por terra (1264: prostrata) e abatidos (1265: strata) junto às fontes. A palavra strata, particípio passado do verbo sterno (“pavimentar”: ver OLD s.v. sterno 3) e origem de “estrada”, forma um jogo sinonímico com via (“caminho”; “rua”). Assim, prostrata viam, palavras isoladas pelas cesuras, são destacadas no interior do verso (1264), com o eco ainda de strata no verso seguinte. Assim, não há necessidade de corrigir a repetição de Lucrécio, como faz Lachmann, que substitui prostrata por protracta.

Se, por um lado, nossos olhos estão ocupados com a visão de tamanho horror, com mortos e semimortos por toda parte, por outro, os ouvidos parecem se deleitar com os sons das palavras. Há, por exemplo, forte aliteração em /p/: per, populi, passim e prompta (1267); paedore, pannis e perire (1269). Ademais, dois pares aliterativos: primeiramente, cum corpore (1268), que ecoa não só na repetição da palavra corpo (corporis 1270), mas já em cooperta (1269); por fim, sodeque sepulta (1271), na conclusão da passagem, par aliterativo preparado pela sequência de sibilantes nos dois últimos versos: corporiS inluvie pelli Super oSSibuS una/ ulceribuS taetriS (…).

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Lucrécio 6.1272-1282: A Peste (3.4)

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ōmnĭă dēnĭquĕ sānctă || dĕūm dēlūbră rĕplērăt

cōrpŏrĭbūs || mōrs ēxănĭmīs || ŏnĕrātăquĕ pāssĭm

cūnctă cădāvĕrĭbūs || caēlēstūm tēmplă mănēbānt,

hōspĭtĭbūs lŏcă quaē || cōmplērānt aēdĭtŭēntēs………………………………………….1275

nēc iām rēlĭgĭō || dīvūm nēc nūmĭnă māgnī

pēndēbāntŭr ĕnīm: || praēsēns dŏlŏr ēxsŭpĕrābăt.

nēc mōs īllĕ sĕpūltūraē || rĕmănēbăt ĭn ūrbĕ,

quō prĭŭs hīc pŏpŭlūs || sēmpēr cōnsuērăt hŭmārī;

pērtūrbātŭs ĕnīm || tōtūs trĕpĭdābăt, ĕt ūnŭs……………………………………………..1280

quīsquĕ sŭūm prō r(e) ēt || ‹prō tēmpŏrĕ› maēstŭs hŭmābăt.

mūltăquĕ ‹rēs› sŭbĭt(a) ēt || paūpērtās hōrrĭdă suāsĭt.

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Por fim, a morte enchera de corpos exânimes todos os

sacros santuários dos deuses e, por toda parte, os templos

todos dos celestes permaneciam carregados de cadáveres,

locais que os vigilantes-do-templo preencheram de hóspedes……………………..1275

Então, de fato, nem o culto às divindades nem o poder divino

eram muito estimados: a dor presente superava isto tudo.

Nem aquele costume de sepultar se mantinha na cidade,

com que antes este povo sempre soera ser enterrado;

todo povo, de fato, perturbado trepidava, e cada um,………………………………….1280

mesto, enterrava os seus ‹conforme o tempo› e a situação.

E a muitas coisas a súbita ‹situação› e hórrida miséria persuadiram.

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A Religião e a Morte

Os templos dos deuses, que outrora estavam repletos de homens vivos, agora estão cheios de corpos exânimes. Não só pelas ruas, estradas e caminhos encontram-se membros sem vida, mas também nos santuários dos deuses. Com tudo isso, a religião (1275: religio: “culto” [aos deuses]) parece esquecida, sem utilidade. A dor presente das inúmeras mortes sobrepunha-se a tudo. Se a religio é o temor religioso, o escrúpulo em relação ao culto, como discute Benveniste, o temor que agora ocupa a mente de todos é aquele da morte, da iminente morte, fazendo com que os homens se esqueçam dos deuses. Para os epicuristas, se os deuses existem, eles não se preocupam com os homens. Assim, não haveria necessidade de religio; o homem deveria, de fato, abandoná-la. Já vimos também, como, para Epicuro e Lucrécio, a morte não deve ser temida. Podemos, portanto, vê-la com prazer, pois a vemos pelos sonoros versos do poeta.

A nova passagem, iniciada por omnia (1272), retomando o mesmo adjetivo, na mesma forma e posição, no início do trecho anterior (1262), é de novo cheia de aliterações, característica marcante do modelo eniano. No primeiro verso, com cesura trocaica, há forte aliteração em /d/: denique, deum e delubra; no v. 1275, novamente passo aliterativo com três palavras: cuncta, cadaveribus e caelestum. Outro trecho, porém, que se destaca em relação à sonoridade é o v. 1289: perturbatus enim totus trepidabat, et unus (“todo [povo], de fato, perturbado trepidava, e [cada] um”). Não só a aliteração em /t/ é evidente, com a repetição da mesma letra em outras posições: perTurbaTus enim ToTus TrepidabaT eT unus, mas também há homeoteleuto em –us, com as palavras perturbatus, totus e unus, dispostas no começo, no meio e no fim do verso.

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Da Tradução e da Morte das Palavras

O objetivo de nossa tradução não é reproduzir todos os tropos, figuras e metaplasmos presentes no original. O leitor, assim, perde boa parte dos ornatos de Lucrécio, do doce mel das musas no DRN. Daí a necessidade dos comentários para que se perceba a poética lucreciana. Contudo, aqui e ali, buscamos dar um pouco do sabor dos versos latinos em português, como a evidente aliteração no verso 1279 da tradução: “com que antes este povo Sempre Soera Ser enterrado” (quo prius hic populus semper consuerat humari). Além da sonoridade, usamos o arcaico verbo ‘soer’ (‘acostumar-se’; ‘ter por hábito’) a fim de dar elevação ao texto traduzido do sublime Lucrécio. A elocução da epopeia deve ser elevada, ainda que possa imiscuir-se uma ou outra expressão coloquial, como no v. 1279: pelli super ossibus una (“só com a pele pegada aos ossos”; “só pele e osso”).

O adjetivo mesto (v. 1281: maestus), que significa ‘triste’, é tentativa também de dar elevação e elocução mais poética à tradução, assim como ‘exâmime’ e ‘exanimado’ no primeiro trecho. O termo ‘mesto’, claramente derivado do original latino, é usado em versos de poetas da língua portuguesa, como em Camões (Os Lusíadas 4.19.5), no discurso de Nuno Álvares Pereira: “[e]m virtude do Rei, da pátria mesta”; ou em Gonçalves Dias em seus Primeiros Cantos (Poesias Diversas, Visões, III — Passamento): “as mestas sombras ao redor com ele”. Assim, aqui e ali, o texto traduzido pode soar arcaico, conhecida característica da elocução lucreciana. Como os homens, “a velha geração das palavras morre” (Horácio, Arte Poética 61); ressuscitadas, ganham um sabor particular nos textos e dão elevação, conferem dignidade, de acordo com Quintiliano (Formação do Orador 8.3.24).

Outras palavras, porém, chamam atenção por serem novas. É o caso, por exemplo, de aedituentes (“vigilantes-do-templo”). Já Aulo Gélio (Noites Áticas 12.10.8) comentava o uso particular no DRN: Lucretius in carmine suo pro ‘aedituis’ ‘aedituentes’ appellat (“Lucrécio em seu poema em lugar de aeditui usa aedituentes”). Segundo Godwin (2000: ad loc.), o neologismo poderia ser uma forma de parodiar a linguagem solene e elevada a fim de ridicularizar os cultos religiosos, já com a substituição dos devotos, os homens vivos que vinham adorar os deuses, por “hóspedes” (v. 1275: hospitibus), outro polissílabo disposto na outra extremidade do verso.

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O Texto Corrompido

Já tratamos neste espaço sobre os problemas que envolvem o estabelecimento do texto antigo, em particular este de Lucrécio. No trecho, há duas partes corrompidas: uma no v. 1281, ‹pro tempore› (“‹conforme o tempo›”), para qual Lachmann propôs compostum, seguido por Bentley, e Munro sugeriu praesenti, seguido por Giussani. Nenhuma hipótese se impôs. O texto estampo na edição Loeb traz pro tempore, versão proposta por Smith, que cita como paralelo passagem de César (Da guerra gaulesa 5.8.1): pro tempore et pro re. Deufert (2016: 317-319) traz outros paralelos latinos e argumenta em favor desta hipótese, comparando com a expressão ὡς ἕκαστος ἐδύνατο (“como cada um podia”) em Tucídides (História da Guerra do Peloponeso 2.52.4). Não há, portanto, acordo e nós seguimos esta última proposta, que parece melhor, com os paralelos aduzidos pelos comentários. Outra forma de fazer a suplementação seria encontrar no próprio autor construções semelhantes, o que tornaria a conjectura mais convincente.

Porém, para a outra passagem, no v. 1282, ‹rēs› (“‹situação›”), todos os editores citados anteriormente concordam com a lição que aparece em um dos manuscritos (Cambridge). Munro defende a versão, comparando com Tito Lívio (Desde a fundação da cidade 3.8.7; 10.26.9): in re subita (“nesta situação repentina”), e Ernout acrescenta ainda outros paralelos (Plauto, O Gorgulho 302; Cícero, Cartas aos familiares 10.16.2). Assim, seguimos a lição do manuscrito.

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Lucrécio 6.1283-1286: A Peste (3.5)

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nāmquĕ sŭōs || cōnsānguĭnĕōs || ălĭēnă rŏgōrŭm

īnsŭpĕr ēxstrūct(a) īngēntī || clāmōrĕ lŏcābānt

sūbdēbāntquĕ făcēs, || mūltō cūm sānguĭnĕ saēpĕ………………………………………….1285

rīxāntēs pŏtĭūs || quām cōrpŏră dēsĕrĕrēntŭr.

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Com efeito, colocavam os próprios familiares

sobre piras fúnebres alheias, com enorme clamor,

e por baixo punham as tochas, brigando amiúde com………………………………………1285

muito sangue antes que se abandonassem os corpos.

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O fim do DRN, como já dissemos, talvez não fosse este. Seja como for, o texto transmitido conclui com a cena das piras fúnebres, com o enterro dos mortos. A conclusão com o enterro pode, porém, remeter a outro modelo, mencionado pelo próprio Lucrécio (DRN 1.124): Homero, cuja Ilíada é encerrada com o enterro de Heitor, mencionando também a pira fúnebre (24. 791: πυρκαϊήν). Assim, a descrição acima poderia ser um fim apropriado para a epopeia didascálica do poeta latino. Não seria estranho, portanto, que os versos fossem abandonados juntamente com os corpos abandonados (1286: corpora desererentur). Sem mais, podemos também nós abandonar esta série em que percorremos todo o episódio da peste no Da natureza das coisas, o poema de Lucrécio que resistiu ao tempo e ainda hoje é lido e apreciado em todo o mundo, em que a morte pode ser observada com prazer!

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De triomf van de Doods, Pieter Bruegel, o Velho, c. 1562

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Agradeço a Eduardo Henrik Aubert pelas correções e todas as sugestões não só para este texto, mas ao longo de toda a série; a Paulo Sérgio de Vasconcellos pelas correções e sugestões ao longo da série; a Giselle de Carvalho pela revisão final. Um privilégio ter leitores assim. Agradeço muitíssimo ao fundador e ao editor do Estado da Arte, Eduardo Wolf e Gilberto Morbach, pelo trabalho sempre muito cuidadoso.

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Para Saber Mais:

Para a discussão sobre a representação do feio nas artes, ver Umberto Eco, Storia della brutezza, Milano, 2007 (no Brasil, a primeira edição é de 2014: História da feiura, tradução de Eliana Aguiar, Rio de Janeiro). Os principais comentários completos e edições do DRN são os seguintes: Bailey, C. (1947). Lucreti Cari De rerum natura libri six, 3 vols., Oxford; Ernout, A.-Robin, L. (1925-8). Lucrèce, De rerum natura: Commentaire exégétique et critique, 3 vols., Paris; GiussaniC. (1896—98), Titi Lucreti Cari De rerum natura libri sex, 4 vols., Torino (encontra-se uma reedição on-line muito recente (2019), gratuita: http://www.audacter.it); Leonard, W. E.-Smith, S. B. (1942). T. Lucreti Cari De rerum natura libri sex, Madison; Merrill, W. A. (1907). T. Lucreti Cari. De Rerum Natura Libri Sex. New York, Cincinnati; Munro, H. A. J. T. (1928). Lucreti Cari De rerum natura libri sex, 3 vols. Cambridge; a mais recente de M. Deufert (2018): Kritischer Kommentar zu Lukrezens De rerum natura, Berlin and Boston. A edição da Loeb Classical Library, muito utilizada ao longo da série: Lucretius. De rerum natura, com tradução de W. H. D. Rouse, revisada por M. F. Smith, Cambridge, London, 1992, que traz ainda boas notas. Foi útil também a seleção de J. Godwin (2000). Lucretius. Selections from the De Rerum Natura, London, com poucas, mas esclarecedoras notas. Sobre a tmese no DRN, ver Hinds, S. (1987). ‘Language at the Breaking Point: Lucretius 1.452’, CQ 37, pp. 450—3; a nota de Smith para a edição da Loeb referida acima, p. 254, nota a; Kenney, E. J. (1971). Lucretius. De Rerum Natura. Book III, Cambridge, em comentário ao v. 262; Gonçalves, W. F. (2021). Sintaxe mimética na épica latina: a questão dos testemunhos e um comentário a Metamorfoses I, dissertação de mestrado defendida recentemente, pesquisa desenvolvida sob minha orientação, em que trata do (suposto) fragmento de Ênio e outros usos da tmese em Virgílio e Ovídio. Na Eneida de Virgílio, ver Harrison, S. J. (1991). Vergil: Aeneid 10. With Introduction, Translation and Commentary, Oxford, em comentário ao v. 794. Sobre a passagem corrompida, ver a discussão em Deufert, M. (2016). “Nocturna versate manu: Wie der Text von Lukrezens De rerum natura noch immer vom Studium seiner griechischen Vorbilder profitieren kann”, Hermes 144, pp. 306-320 (esp. 317-319). Sobre como se fazem conjecturas para os textos antigos, ver Nisbet, R. G. M. (1991). “How Textual Conjectures Are Made”, MD 26, pp. 65-91. Sobre o termo religio, ver a célebre obra de É. Benveniste (1995). O Vocabulário das Instituições Indo-Européias, vol. II: Poder, Direito, Religião, pp. 267-281, Campinas, tradução de Denise Bottmann e Eleonora Bottmann (a primeira edição francesa é de 1969). No DRN a palavra ocorre nas seguintes passagens: 1.63, 78, 83, 101, 109 (plural), 932; 2.44; 2.660; 3.54; 4.7; 5.86; 5.114; 6.62.

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Alexandre Pinheiro Hasegawa

Alexandre Pinheiro Hasegawa é professor de Língua e Literatura Latinas na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).