Wynton Marsalis: Mais um assassinato público e sem sentido de um Cidadão Negro por agentes da lei

O texto abaixo, traduzido por Leandro Oliveira — doutor em Sociologia pela UFSCar —, é de autoria do virtuoso do jazz, trompetista norte-americano Wynton Marsalis, sobre, bem, mais um assassinato público e sem sentido de um Cidadão Negro por agentes da lei.

O texto foi originalmente divulgado entre as notas do blog pessoal de Marsalis, em seu site oficial, e teve sua tradução e publicação no Estado da Arte autorizadas pelo próprio Wynton, a quem agradecemos profundamente.

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Wynton Marsalis (Wikimedia Commons)

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Considerações sobre mais um assassinato público e sem sentido de um Cidadão Negro por agentes da lei

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Com a intensificação do clamor público e a proliferação de opiniões e justificadas expressões ​​de indignação por parte de tantos especialistas, autoridades e celebridades populares, temo que haja pouco espaço ou necessidade de mais uma pessoa expressar uma opinião comum. Eu também acredito que as tragédias cotidianas que são lugar-comum e rotineiras no nosso modo de vida devem ser abordadas quando elas acontecem, não quando se acumula uma tensão tamanha no sistema que ela precisa ser liberada. Seria também muito mais difícil atrair uma multidão todos os dias pelas formas sancionadas e aceitas de corrupção e desrespeito contra negros americanos e que são gritadas em inúmeras gravações e vídeos e ainda mais poderosamente sussurradas na forma de leis, práticas e procedimentos discriminatórios que resultam em práticas injustas de moradia e emprego e, mais tragicamente, longas sentenças de prisão injustas.

Grande parte dessa “cacofonia louca” é executada oficiosamente e com um sorriso caloroso e inócuo. Assim, americanos de todos os matizes passam rapidamente da raiva para a aceitação e, conforme os meses se convertem em anos, o nosso silêncio diário e inação são intencionalmente interpretados como endosso e voltamos à ilusão de que “passamos por isso”, porque o triturar cotidiano é mais importante do que aquilo que encontramos se simplesmente abrirmos os olhos e os mantivermos abertos.

Essa tragédia em particular, por mais comum que tenha se tornado nas últimas décadas, é perfeitamente simbólica desse tempo e local específicos. E essa pandemia global deu a ela um claro e mais pungente realce. Esse assassinato é assim peculiar por conta do porte avantajado e da natureza gentil do homem que foi assassinado, por causa da atitude presunçosa, paciente e determinada de seu assassino e dos outros agentes de garantia da paz que protegem o crime à vista do público, e porque nossa nação está sempre tentando escapar de seu pecado original com os gritos estridentes de outras transgressões sérias, embora menos notórias. Essa execução pública integralmente registrada exige novamente toda a nossa atenção e interesse, SE tivermos algum resquício de crença na moralidade, na razão e na inteligência necessárias para realizar, manter e proteger uma democracia libertária.

Em cada uma das quatro décadas da minha vida adulta, abordei nossos inúmeros problemas sociais e de caráter na América em parte defendendo a crença no progresso rumo à liberdade que meus pais ensinaram que talvez fosse possível para todos nós. Experimentalmente, artisticamente e espiritualmente, tive um relacionamento permanente — algo obsessivo — de confrontação com essa calamidade nacional e esse dilema.

À medida que essas décadas se passaram e nossa nação retrocedeu das promessas do Movimento dos Direitos Civis que minha geração cresceu acreditando melhorariam substancialmente as oportunidades econômicas e sociais para aqueles que as tiveram negadas por nossas ‘tradições’, falei, escrevi, toquei e compus sobre o tributo que a injustiça racial americana cobrou de todos nós – nossas possibilidades, nossa presença e nossa promessa. Essas palavras, notas e muito mais parecem ter sido desperdiçadas em shows, gravações, em salas de aula, em prisões, em parques, em programas de TV, em impressos, no rádio e em quase todos os palcos desde os bairros afastados até os palacetes de cobertura nas cidades, vilas e subúrbios em todos os estados e regiões de nosso país dia e noite e, às vezes, em noites profundas por mais de 40 incansáveis anos.

Ontem mesmo eu estava andando com minha filha de 11 anos e ela me perguntou: “Você viu o vídeo do homem em Minneapolis?” “Sim” eu disse. Eu sempre falo com ela sobre história, escravidão e todo tipo de coisa em que ela não está interessada – e provavelmente eu exagere por esse motivo. Ela perguntou: “Por que o homem simplesmente ajoelhou-se sobre ele e o matou assim na frente de todo mundo?” Em vez de responder, fiz -lhe uma pergunta: “Se eu me esforçasse para esmagar algo que era inofensivo para mim, e pisoteasse repetidamente e deliberadamente para ter certeza de que eu havia matado cada gota de vida ali, e depois olhasse desafiadoramente para você, como se estivesse triunfante. Por que eu faria isso? ” Ela disse: “Você odeia insetos”. Eu ri e disse: “Digamos que não seja necessariamente um inseto, apenas algo que eu queira destruir completamente. Por que eu deveria?” Ela disse: “Porque você pode.” “Sim” e eu emendei: “Por que mais?”

“Porque você quer”, e então eu disse: “Sim, mas você pode pensar em outro motivo mais básico?” Ela pensou por um tempo e simplesmente não conseguiu avançar. Continuei falando e provocando-a: “É um dos mais importantes”. Depois de alguns minutos ela revirou os olhos e disse: “Apenas me diga.” Eu relutei em contar a ela esse último motivo já que ele quase sempre fica de fora das discussões nacionais quando esses tipos de crimes repetidos por nossos oficiais da paz são cometidos, mas imaginei que nunca é cedo demais para considerar o óbvio. Então, eu disse: “Porque ele gostou. Para ele, e para muitos outros, esse tipo de coisa é diversão. Como os bons rapazes da Geórgia que perseguiram aquele irmão pela vizinhança para se defenderem”. Não é mais complexo que isso. Ela disse: “hmmmmm…” não convencida. E eu disse: “esse tipo de diversão é muito mais antiga do que a própria América”. Eu considerei o quão diferente a compreensão dela é sobre essas coisas, mesmo que apenas por causa do tempo, lugar e experiência.

Durante a minha infância, o racismo puro e a pura ignorância absoluta eram apenas um fato, mas também o eram o protesto esclarecido e a resistência determinada. Era outro tempo, os anos 60 entrando nos anos 70. Com nossos cabelos Afros e a música conscienciosa de James Brown, Marvin Gaye e Stevie Wonder, os irmãos mais novos estavam determinados a não tolerar nenhuma provocação, ao contrário de nossos ancestrais que sentimos terem voluntariamente sofrido e aceitado o desrespeito. E era tão fácil acreditar que eles aquiesciam sua própria degradação porque não sabíamos nada sobre a muito profunda tristeza e dores de suas vidas, porque suportavam tudo em silêncio e inquietante vergonha. Agora, esses idosos já se foram há muito tempo e cada dia que passa revela a ingenuidade com que subestimamos o poder e a obstinação de nosso oponente. Agora, nossos ancestrais parecem muito maiores, embora como premonições sombrias no fundo de um espelho ofuscante que está expondo a todos nós, preto e branco.

A mitologia racista, a desigualdade social e a exploração econômica usavam propaganda e linhas físicas de demarcação para criar e reforçar um estado de espírito. Isso foi chamado segregação. Como meus pais cresceram até a idade adulta nisso e eu mesmo fui criado nisso, sem saber, acreditei nisso e até me referi a mim mesmo como minoria. O falecido Albert Murray, meu mentor e avô intelectual em Harlem, Nova York, me dissuadiu da mentalidade segregada com uma pergunta penetrante: “Como você aceita ser uma minoria em seu próprio país? Um italiano é uma minoria na Itália?”

Bem, vamos lá. Essa é uma pergunta que nosso país deve se fazer. Se somos plurais, assim seja. Mas nós não somos. Somos segregados de muito mais maneiras do que as raciais e, se quisermos ser integrados, permanece uma pergunta desagradável: quais genes recuarão e quais serão dominantes? Quem são eles e quem somos nós? Murray me disse uma vez: “O conflito racial na América sempre foi preto e branco versus branco”. Vemos isso nos tumultos atuais que se espalham por todo o país. Existe todo tipo de pessoas por aí e sempre existiram. Qualquer olhadela superficial em protestos nos anos 60 revela americanos de todos os tons.

Mas quando tudo estiver dito e feito, e todos os vídeos e fotos se tornarem apenas uma parte do kit de narrativa pessoal de um manifestante a ser sacado diante de netos e crianças como testemunho de sua juventude. Quando a enorme riqueza coletiva da América passar de uma geração para a seguinte, quem de nossos irmãos e irmãs brancos, agora tão envergonhados, estará nas ruas então? Tocar música alta e desafiadora em seu quarto significa uma coisa aos 15 anos, mas é muito diferente quando a casa agora é sua. Quem estará lá fora, certificando-se de que seus irmãos e irmãs de tons mais escuros na luta tenham oportunidade suficiente para alimentar sua família e uma educação suficientemente boa para participar do debate nacional, para articular uma posição informada em sua luta por seus direitos e responsabilidades e a segurança financeira para aproveitar a velhice com o conforto da saúde, do lar e da felicidade?

Se a revolução de Reagan nos anos 80 é algum indicativo, não espere pela “América pós-racial” que deveríamos ter alcançado mesmo sem ter corrigido ou ao menos reconhecido qualquer um dos problemas reais.

Todo o construto de negritude e branquitude como identidade é, de todo modo, falso. É um labirinto de bobagens projetado para te manter perdido e correndo em círculos em busca de uma solução que só pode ser encontrada fora do próprio jogo. Nossa forma de democracia nos oferece a oportunidade de explorar uma inteligência coletiva, uma criatividade coletiva e uma herança humana coletiva. Mas o jogo nos mantém focados em derrotar as pessoas que deveríamos ajudar. E quanto mais indefeso o alvo, mais cruel é o espancamento. Como eu estava tentando explicar para minha filha, há algo de prazeroso em abusar de outra pessoa quando você se sente mal consigo mesmo.

Não podemos nos sentir muito bem com nossa nação agora. Separados pela disparidade de riqueza, segregados em pensamento e ação, mal liderados à esquerda e à direita, confusos por valores de instituições e símbolos de excelência, carecendo de toda integridade dos níveis mais altos aos mais baixos do governo, indisciplinados no exercício das responsabilidades de cidadania, desengajados e superalimentados em trivialidades e jogos sem sentido, nas gargantas uns dos outros o tempo todo por qualquer razão. Parece que estamos em um beco sem saída.

É engraçado pensar que todo esse experimento em democracia poderia terminar com uma população tão polarizada e absorvida por si mesma que não pode imaginar uma expiação para a escravidão e a subjugação de outros seres humanos e compartilhar uma enorme riqueza (financeira e outras) uns com os outros. Mas não seria tão surpreendente, porque, não importa quantas vezes nos encontremos com a oportunidade de corrigir esses erros tremendos, continuamos sacando a mesma resposta errada. É como ter a solução para um problema de matemática sem conhecer a mecânica subjacente para a resolução e uma falta de paciência e humildade para pedir ajuda e aprender. É a pior coisa que pode acontecer, continuar fazendo a mesma coisa errada repetidamente, e com mais força a cada vez …… ou talvez, essa resposta errada que continuamos apresentando — talvez seja apenas quem realmente somos.

A vida não é um livro ou um filme. É em si muito complicada, mas simples de ser entendida da perspectiva de qualquer outra pessoa. Suas verdades atingem suas próprias conclusões que vivem como fatos, embora as mentiras possam permanecer como história temporária. Mas George Floyd deitado no chão gelado neste momento é um fato, assim como Eric Garner e todos os outros americanos que não mereciam ser mortos pelos agentes de garantia da paz. Os assassinatos de ambos os homens são assustadoramente semelhantes. E eles, reunidos com quase seis anos de diferença, nem sequer são um referendo sobre os agentes infratores, mas uma visão de como não pudemos superar a ilegalidade e a ilegitimidade de nossos tribunais e nossa política que reverteu a vitória do Norte sobre o Sul na Guerra Civil. Essa disputa bem-sucedida, legal e política, para reformular a escravidão em termos de peonagem e manter uma subclasse ainda está em andamento. Suas vitórias, com efeito, cuspiram nas sepulturas de 700.000 americanos perdidos de ambos os lados naquele conflito. E lutamos novamente nossa Guerra Civil todos os dias. Foi interessante ouvir Keisha Lance Bottoms, a prefeita de Atlanta e Killer Mike [rapper norte-americano], ambos englobando a Guerra Civil, o Movimento dos Direitos Civis e esse momento num mesmo ato. Eles colocaram o momento presente em seu contexto apropriado — uma continuação da luta pelos direitos humanos e pelas liberdades civis contra o legado da escravidão e do racismo obstinado.

Estes são os pensamentos de Abraham Lincoln sobre a escravidão:

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“Eu a odeio por conta da injustiça monstruosa da escravidão em si. Eu a odeio porque priva nossa republica de ser um exemplo de influência no mundo, permite que os inimigos de instituições livres com razão nos ridicularizem como hipócritas, faz com que os verdadeiros amigos da liberdade duvidem de nossa sinceridade e, principalmente, porque lança muitos homens realmente bons entre nós em uma guerra aberta com os princípios mais fundamentais da liberdade civil, criticando a Declaração de Independência e insistindo que não há princípio certo de ação, mas somente o interesse próprio”.

Atente para a lista de corrupções que Lincoln expôs há 160 anos — não há melhor definição de nossa posição atual. Ele deve ter saído da sepultura para dirigir-se a nós uma vez mais. Por mais triste que seja dizer isso, os americanos contemporâneos podem não estar à altura do desafio da democracia. Muitos países do mundo parecem estar abertamente recuando deste desafio. Mas esse recuo sem véus será diferente aqui, dado nosso credo de igualdade, liberdade e dignidade das pessoas, exige-se que construamos maneiras elaboradas de eliminar problemas persistentes que parecemos não ter vontade, recursos e humanidade para resolver.

E é o lento e lento sufocamento de tudo o que é negro: aquela falsa construção de negritude que foi inventada na América com o propósito expresso de elevar uma branquitude igualmente falsa; aquela negritude que foi parodiada, zombada e maculada, foi estuprada, roubada e linchada, enganada e feita de tonta e levada a estapear-se sob a bandeira do entretenimento, ainda buscando a atenção e os recursos de seus senhores, odiando e desrespeitando e matando a si mesma; aquela onipresente negritude a ser nomeada e renomeada repetidamente com o objetivo de negar seu próprio nome e o direito mesmo de nascer, aquela negritude que aparece em tudo, desde a tigela de cereais e o sotaque do sul até a chorosa guitarra do rock e um pedaço de frango frito, chegando à Constituição em si. Oh sim, sufocar toda a negritude será difícil. Porque ela reaparece como direitos do Estado versus autoridade federal, como a raiz do colégio eleitoral e como distritos manipulados e a repressão moderna do direito de voto de algumas pessoas. Essa negritude inescapável é sempre um assunto crucial nas discussões que elegem os presidentes, onde ela aparece em forma de imigrantes, criminosos e pregadores renegados. É claramente vista todos os dias e noites em nossas cidades mais ricas, cambaleando pelas ruas em um estupor esfarrapado com uma placa dizendo: “você me vê?” e carregando as datas 1835, 1789, 1855 e todos esses anos de escravidão. E todos esses fantasmas relembram você que nós revertemos a Reconstrução, nós negamos o heroísmo afro-americano da Primeira Guerra Mundial com a segregação da Segunda Guerra Mundial, que negamos aos nossos cidadãos acesso a financiamento e moradia iguais e educação e assistência médica e igualdade de oportunidades e que revertemos os ganhos do movimento dos direitos civis sob os narizes de muitos de nós que estamos vivos para ler este texto. E que a cada promessa quebrada, dizia com um sorriso, “até a próxima irmão, até outra”.

Esse lento sufocamento de toda a negritude no DNA americano se mostrará impossível porque estamos inscritos na Constituição original — embora seja como 3/5 de uma pessoa. A luta dos negros, mais do que qualquer outra, promoveu a inteireza desse documento ao longo desses séculos sangrentos. O desafio que o nosso país enfrenta agora é o mesmo de sempre: poderemos porventura contar com a ideia de que o oposto da injustiça não é justiça, é intervenção corretiva. A questão que continua nos atormentando através de séculos, décadas, anos, meses, dias, horas, minutos e até segundos: Temos a vontade e a intenção de elevar esses 3/5 acima dos 5/5 e criar uma sociedade produtiva como nunca se viu?

De uma coisa estou certo, isso nunca vai acontecer com seu pé no pescoço preto e não estou falando sobre o mais recente policial, obviamente culpado. É sobre todos nós que rejeitamos as injustiças do nosso passado coletivo com ações individuais consistentes e implacáveis ​​que vão muito além de dar dinheiro.

Esta tem sido minha resposta à injustiça em nosso país e no mundo nos últimos quarenta anos:

Black Codes (1984); Blood on the Fields (1997); All Rise (1999); From the Plantation to The Penitentiary (2006); and The Ever Fonky Low Down (2019)

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Black Codes, 1984

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Blood on the Fields, 1997

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All Rise, 1999

From the Plantation to The Penitentiary, 2006

The Ever Fonky Low Down, 2019

— Wynton

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